VITRINE CULTURAL: VELHICE FELIZ

Velhice feliz
Muitas pessoas enfrentam uma crise real quando atingem a idade madura, lá pelos 40 ou 50 anos. É tempo de celebrar tudo o que já conquistamos, mas também de analisar se fizemos as escolhas certas ou se ainda precisamos fazer mudanças radicais em nossa vida, sejam elas de aspecto pessoal ou profissional. A meu ver, essa crise da meia-idade é normal. Afinal, a essa altura, precisamos ter certeza de estarmos vivendo da melhor maneira possível, em prol de nossa felicidade.
Quando nos aproximamos da velhice – pois é difícil admitir que já chegamos lá –surge uma sensação de urgência de aproveitar bem o último terço da vida. É hora de valorizar mais o nosso tempo livre, fazendo o que realmente nos agrada, seja o bem-estar em contato com a natureza, a companhia de um bom livro, a satisfação de realizar um sonho ou uma viagem, praticar um hobby ou simplesmente assistir a um bom filme. Porém, mais importante que tudo, é cultivar relações sociais gratificantes, sejam elas amorosas, familiares ou de amizade. Estudos mostram que a convivência com parceiros, amigos e pessoas de diferentes gerações é muito importante para a saúde mental dos idosos, reduzindo a possibilidade de desenvolverem sintomas de depressão.
Pensando na importância de vivermos, em qualquer época de nossas vidas, cercados de amigos valiosos ou de familiares queridos, recomendo três ótimos filmes recentes, que tocam a gente pela sensibilidade, mostrando o valor dessas relações.

O primeiro, disponível no MUBI e na Apple TV, é o norueguês Valor Sentimental, de Joachin Trier, vencedor do Oscar de melhor filme internacional em 2026, que superou o nosso favorito Agente Secreto. A excelente atuação de Renate Reinsve rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz, assim como Stellan Skarsgård, que interpreta seu pai, foi indicado a melhor ator coadjuvante. Na trama principal, um diretor renomado deseja que sua filha atriz seja a estrela de seu próximo filme, mas ela recusa o papel. Ao mesmo tempo, o que a história mostra é a tentativa de um pai de reaproximação de suas filhas, após um longo período de afastamento, desde a separação da mãe delas. Aos poucos, são revelados sentimentos profundos dos personagens, como mágoas, ressentimentos e ciúmes, que dificultam a reconciliação. O filme evidencia o quão frágeis são as relações familiares e como a ausência impacta os afetos.
O segundo, disponível na Netflix, é o divertido filme Meu Nome é Agneta, baseado no livro homônimo da autora Emma Hamberg, que foi um grande sucesso de vendas na Suécia. Trata-se da história de uma sueca de meia-idade que, desempregada e insatisfeita no casamento, decide realizar o sonho de viver na Provença, aceitando um emprego de babá. Porém, só após sua chegada, ela descobre que deve cuidar de um idoso excêntrico. Mesmo assim, ela decide aceitar o emprego, e sua vida se transforma completamente a partir desse encontro e de novas relações de amizade que surgem.
O terceiro, também no catálogo da Netflix, é Criaturas Extraordinariamente Brilhantes, de Olivia Newman. Nesse filme, curiosamente, o narrador é um polvo que tem um afeto especial por Tova, faxineira noturna do aquário em que ele vive. Sally Field interpreta essa senhora viúva que já cogita vender a casa para morar em um lar de idosos. Apesar de ter algumas amigas, é com o polvo gigante Marcellus que Tova gosta de conversar, até a chegada de um rapaz no vilarejo onde ela mora.

Na Netflix, também vale a pena assistir ao filme menos recente O Pior Vizinho do Mundo (2022), no qual o excelente Tom Hanks interpreta um viúvo rabugento, que acaba fazendo amizade com a família que vem morar ao lado. Com tema parecido e ainda disponível no Prime Video, Um Santo Vizinho (2014) é estrelado por Bill Murray no papel de um veterano de guerra solitário, que se torna amigo do filho pré-adolescente de uma vizinha. Ambos os filmes são comédias dramáticas que mostram o valor de amizades intergeracionais.
Finalmente, menciono aqui um trecho do livro Velhice, publicado inicialmente em 1970, mas ainda atual, no qual a autora Simone de Beauvoir explica por que o tema da velhice era, e continua sendo, praticamente um tabu:
“Diante da imagem que os velhos nos propõem de nosso futuro, permanecemos incrédulos; uma voz dentro de nós murmura absurdamente que aquilo não vai acontecer conosco; não será mais a nossa pessoa quando aquilo acontecer. Antes que se abata sobre nós, a velhice é uma coisa que só concerne aos outros. Assim, pode-se compreender que a sociedade consiga impedir-nos de ver nos velhos nossos semelhantes”.*
Espero que possamos, como sociedade, proporcionar aos nossos semelhantes, além de amparo na velhice, oportunidades para serem felizes. E já que somos um sindicato de trabalhadores, deixo, como última mensagem, outra passagem muito pertinente, do mesmo livro da filósofa francesa:
“Os economistas e os legisladores […] deploram o peso que os não ativos representam para os ativos: como se estes últimos não fossem futuros não ativos e não assegurassem seu próprio futuro ao instituir o amparo aos idosos. Os sindicalistas, por sua vez, não se enganam: quando apresentam suas reivindicações, nelas reservam um grande espaço para o problema da aposentadoria”.* (grifo meu)
*Beauvoir, Simone de. A Velhice. Nova Fronteira, 2024. Edição do Kindle.
| Simone Daumas é servidora aposentada do Banco Central do Brasil e Conselheira Regional do Sinal-RJ.
A coluna expressa opiniões da autora e não reflete necessariamente o posicionamento do Sinal-RJ. Envie críticas, comentários e sugestões para simone.daumas@gmail.com |
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