1962 – O ANO PARA EU ESQUECER

     Em 1960 eu viera de Belém do Pará para o Rio de Janeiro. Estava de férias do BB, mas não pretendia voltar à minha terra. Alimentava a esperança de trabalhar no Banco em algum Departamento da Direção Geral.  O amigo e conterrâneo Germano, falecido prematuramente, me deu toda ajuda possível e assim fiquei adido ao Departamento Médico do BB, então ali na rua do Acre, perto da Praça Mauá. A adição nada me garantia, pois precisava ser renovada a cada 90 dias, no máximo até um ano, e só.  Mais uma vez o bom amigo Germano, apoiado pelo Dr. Jorge Figueiró Winter, Chefe do Departamento Médico, atuaram em minha defesa e acabaram me transferindo na marra para o MEDIC. O Gerente da Agência de Belém nunca me perdoou e chegou mesmo a tentar obstruir um trabalho que anos depois eu fui lá  fazer, já no Departamento de Treinamento de Pessoal. Não teve êxito. Ocorre que em 1960 eu trazia de Belém complicados problemas de um relacionamento que vivia a anunciar que acabaria a qualquer momento. Tentei salvar meu primeiro matrimônio, porém em meados de 1962 deu-se o rompimento definitivo. Saí de casa decidido a iniciar o desquite. Saí praticamente sem lenço nem documento e, ainda mais, com o vento contra. Peguei uma pequena mala e fui de Botafogo a Copacabana de ônibus. Não tinha certeza de nada, mas ia tentar. Saltei na Barata Ribeiro esquina com a rua Djalma Ulrich. Me encaminhei para o lado direito, parte da rua que poucos conhecem. Ali, bem no final, há (ou havia) uma entrada que dava para uma pracinha interna de um condomínio, encostado ao morro. O bonito prédio tinha 10 andares.  Fui ao nono andar e toquei a campainha. Atendeu-me a mesma senhora russa de uns 85 anos que eu já conhecia. Quando chegamos ao Rio em 1960 fomos morar num dos quartos que ela alugava. Eu ganhava muito pouco, não dava para pagar apartamento. Ela me reconheceu e me acolheu com simpatia, porém informou que não dispunha de nenhum dos quartos sociais, estavam todos ocupados. Mostrou-me o quarto de empregada que de quarto nada tinha.  Era uma área bem pequena em forma de “L” onde havia um pequeno sofá. Nem móvel cabia. O outro extremo dava para uma janela de onde se via a pracinha lá embaixo. Para o salário que eu ganhava, ainda tendo que pagar pensão, estava de bom tamanho, sem qualquer trocadilho. Me hospedei ali mesmo. Eu sabia que teria uma vida muito difícil sob todos os aspectos, especialmente pelo emocional. Nunca comentei nada com minha família em Belém. Meus pais e irmãos desconheciam o estado em que eu me encontrava, não era justo preocupa-los. Eu almoçava na rua, quando almoçava, e jantava na pensão da senhora Russa que fazia uma sopa dos deuses. Era bem magro, não precisava de muito para saciar a fome daquele corpo de um desquitado só e endividado. Sim, porque o salário não cobria as despesas. Eu tinha apenas cinco anos de BB e vinte e cinco de idade. O jeito foi me pendurar nas garras de um agiota, aposentado do BB, fora os papagaios feitos em Banco. Os dias passavam rápido, mas as noites costumavam ser muito longas acompanhadas da solidão.Naquele pequeno ambiente em que dormia (quando dormia) era comum eu mergulhar nas lembranças de casa, minha grande família, o conforto e o carinho que deixara para trás ao tomar uma decisão de vida precipitada e sem retorno. O coração não quis ouvir o bom senso, a razão fora por mim espezinhada, humilhada. Minha juventude se superestimou e a independência virou prisão.Algumas noites minha distração era, acreditem, assistir, lá de cima, aos comícios do Sr. Luis Carlos Prestes. Ele chegava, colocava um caixote ou um banquinho e, ali mesmo,no jardim em frente ao prédio onde ficava a Embaixada de Cuba, iniciava os seus discursos para algumas dezenas de adeptos. O golpe militar só ocorreu quase dois anos depois, em 1964. Nas outras noites eu ouvia meu inseparável rádio de pilha.Dias, semanas, meses numa rotina sem novidade. Foi quando conheci um professor paraense que mantinha um curso no Centro Comercial de Copacabana. Ele confiou em mim, seu conterrâneo, e me cedeu uma sala para, nos fins de semana, eu dar aulas a jovens interessados em fazer concurso para o BB e para o BACEN. Foi mais um amigo, um anjo da guarda, que surgiu no meu caminho na hora certa.Para atrair alunos ele mesmo divulgava minhas aulas entre suas turmas. Aos poucos fui tendo meu trabalho mais conhecido e respeitado e as turmas cresceram. Eu me dedicava com afinco às aulas nos fins de semana, era o único tempo livre que eu tinha. Horas e horas de muito trabalho que valeram a pena.  Entre meus alunos pelo menos dois, muitos anos depois, se destacaram no BB e outros no BACEN. No BB dois irmãos chegaram, um a chefiar importante Divisão do CESEC e seu mano a comandar um Departamento. Reencontramo-nos então. O curso me aliviou bastante as despesas, porém eu continuava endividado.Minhas noites permaneciam solitárias, vazias. Meu corpo dormia meio encolhido. O sofá era menor que eu. Chegou o Natal e Papai Noel nem deve ter notado minha presença. Passou lotado. Pelo menos eu tive um carinho amigo no abraço da senhora russa, minha senhoria, que compartilhou comigo nossa solidão.A passagem do ano não foi diferente. Dei um pulo rapidamente na Av. Atlântica para ver o movimento. Ainda não havia esta festa de fogos de artifício de hoje e nem a violência globalizada que desaconselhasse sair só e à noite. Encerrava-se ali 1962, o ano para eu esquecer. Não economizei nas lágrimas quanto voltei ao “quarto” ali pela uma da madrugada. Sendo o mais velho de uma família tão grande eu estava só, irremediavelmente só. Mas o problema era apenas meu.  O ano seguinte traria de novo para mim o anúncio de melhores dias visto que conheci e comecei a namorar com Zezé. A vida prometia se encher de luz e me fazer acreditar novamente no amor.

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