A EMOÇÃO ESTÁ GANHANDO DA RAZÃO

    “Uma vez na vida e outra na morte”, quando algum desavisado descobre que sou eu que “comete” esses textos, vejo-me obrigado a responder a perguntas mais ou menos inevitáveis. A primeira é sempre a mesma: por que só agora, depois de velho, passei a escrever? A reposta está pronta: – “Escrevia onde aparecia uma chance, como, por exemplo, no “Espelho”, antigo jornal da ASBAC. Mas, a oportunidade de atingir todo o banco só apareceu depois que o portal do Sinal e a Rionet foram criados. Depois, vem aquele “rasga sedas” do por que não escrevo um livro? A resposta também está na “ponta da língua”: – “Já escrevi sim, mas, nunca publiquei. As editoras, só bancam quem tem nome na praça, seja escritor ou não. Para desconhecidos só resta a opção de “bancar” o custo, que está em torno de uns dez mil reais. O meu ego não é tão inflado assim, para investir tamanha quantia “.  E finalmente, uma “cutucada” que me deixa sem resposta: – “Gozado, eu sempre considerei você uma pessoa calada, fechada, introvertida… sem senso de humor… sem emoção…   Nesse ponto – o do “sem emoção” – deixo de prestar a atenção no “inquisidor” e passo a flutuar sobre os fatos que estão por trás da cortina que esconde a minha realidade: sou um teimoso “escrivinhador” que atua, às vezes, na posição de um observador de costumes e, em outras, contando casos do meu dia a dia. Nessas duas ocasiões, por falta de inspiração natural, existe a necessidade de muita transpiração para repassar aos textos, o humor e a ironia, naturalmente intrínsecos, às diversas situações.  E, existem as ocasiões, não raras, que abandono os textos leves e abordo assuntos mais sérios, todos conduzidos pela minha profunda ansiedade.  Só que, de uns tempos para cá, talvez pela desconfiança de que várias situações não mais se repetirão (já escrevi sobre isso, heim!), a cada dia fica mais comum, eu me emocionar com ocorrências que, até pouco tempo, eram absolutamente indiferentes para mim. Mesmo na construção dessas “mal traçadas linhas”, como diria o poeta, o lado emotivo, a cada dia, torna-se mais forte do que o do observador. Travo verdadeiras batalhas internas para conseguir alguma “leveza”.   Todavia, o pior de tudo está em ouvir músicas e em rever os meus filmes prediletos. Não adianta conhecer de “cor e salteado” os enredos, as cenas e os finais de obras que adoro. É assistir, arrepiar-me todo e ficar emocionado a ponto de sentir um nó na garganta, que embarga a minha voz. Com a música é a mesma coisa. Outro dia mesmo, minha filha caçula deu uma festa em casa para os seus amigos. Fiquei isolado, num quarto, ouvindo de longe. A princípio, a parte musical, estrangeirada, passou “batida”. Depois, vieram os pagodes e os funks, que amaldiçoei. De repente, quando a temperatura etílica da festa estava alta, surgiu a voz de Maria Betânia, cantando “Sem Fantasia”, do Chico Buarque. Para minha surpresa, foi acompanhada em coro. Não resisti e fui junto. Quando chegou a parte do “… Vou te envolver nos cabelos. Vem perdeste em meus braços, pelo amor de Deus…”, estava chorando de soluçar. Confesso que custei a me controlar.  Por sorte, ninguém viu. Desconheço qual é a idade da razão. Só sei que, depois dos cinqüenta, não consigo esconder os sentimentos, cada vez mais à flor da pele. Posso não me ter tornado um bobão, mas, sem dúvida, virei um “chorão”.