AMOR APENAS RIMA COM TERROR

    Sou um eterno sentimental, já disse isso várias vezes, e não sei viver sem amor. Este é um dos motivos porque embora insista em conviver com a felicidade, sinto-me um tanto deslocado neste mundo onde nasci, cresci, mas a vida me fez chegar a um futuro com o qual tenho muitas e sérias discordâncias.Sei que alguns se recusam a admitir que o amor esteja agonizante. Claro, via de regra preferem fazer este juízo olhando o mundo apenas da janela de sua sala para dentro. Se têm uma família unida e feliz, estendem este conceito a todos os lares, ruas, esquinas, enfim, aos quatro cantos deste planeta. Se o desamor os pega desprevenidos através de traição, desenganos ou violência em vários níveis, geralmente sofrem mais.É uma espécie de cego que não quer, ou se recusa a ver. Faz-lhe mal admitir uma realidade que destrua seus sonhos, que desminta aquilo em que sempre acreditou, que sempre pregou, que sempre cantou em prosa ou em versos. Por experiência própria sei que dói muito falarmos tanto em paz, em amor, e vermos que o desamor progride a passos largos, ameaçadoramente, atacando-nos onde quer que estejamos, derrubando nossos princípios, pichando nossos conceitos, invadindo nossa intimidade, impondo-se pela força, pela agressão em atos ou palavras.Eu costumava dizer à minha falecida esposa, Zezé, contrariando o que afirma o padre Marcelo, que, a julgar pelo crescimento infernal do desamor, da violência em vários níveis, da crueldade com que certos “seres humanos” cometem seus crimes, até contra crianças e idosos, a mim parece mais que o inferno esteja subindo, do que o céu descendo… A realidade é que o comprova, não minhas meras palavras. Mais entristece e preocupa quando percebemos o desamor se transmudar, se converter em terror. Este, hoje, ocorre em vários níveis e em vários estágios. Até em nome de alguma religião, ou de algum deus, aplicam normas de tortura que alcançam também o grau de assassinato. Parece mesmo que a vida, este dom maravilhoso, não mais comove determinadas consciências, não mais toca a certos corações.O terror, todavia, não age apenas em forma de atentados, usando armas destrutivas, homens bombas, em assaltos, etc.  O terror também vem do poder, sim, do poder oficial que negligencia com seus deveres permitindo, cada dia mais,  o aumento da população mais carente, milhões de seres necessitados de tudo, até dos mais comezinhos meios para sua sobrevivência. O terror existe quando se vê, se assiste, e nada se faz para evitar que tantos seres humanos, ainda hoje, morram de fome, de sede, de doenças as mais variadas. E são milhões, são milhões de pessoas, adultos e crianças, que parece terem nascido apenas para sofrer e morrer.  Que destino mais cruel, embora saibamos que o próprio homem contribui, e muito, para que tais tragédias aconteçam pelo mundo afora, permanentemente, e essas pobres vítimas só sejam lembradas em hipócritas discursos dos chefes das nações mais ricas quando se encontram para “convescotes” bem regados a vinhos nobres, uísques caríssimos e champanhe. Devidamente saciados eles esbanjam uma falsa caridade, uma mentirosa vontade de ajudar os países pobres com migalhas que lhes sobram eventualmente de seus luxuosos hábitos e costumes. Mas todo ano eles se reúnem e promovem aquele espetáculo a que já nos acostumamos a ver pela mídia internacional. Amor? Não, jamais, o descaso pelo que poderiam fazer e não fazem, está muito mais para o significado de terror, terror oficial, isso sim, ou como chamar o desinteresse para com problemas tão graves que afligem e fazem sucumbir tantas vidas anualmente? Se houvesse mais solidariedade, um empenho maior de quem esbanja condições de poder minimizar e, quem sabe, extirpar este sofrimento humano, o mundo poderia estar hoje bem melhor, com menos revanchismos que só incrementam o clima de terror. Mas, enquanto prevalecer o egoísmo, uma espécie de colonialismo da indiferença, tudo ainda mais agravado pela insensatez de guerras tantas, acredito que nosso mundo não se livrará do terrorismo.Todos sabem que não se combate a violência com mais violência, porém é o que mais têm feito aqueles que ostentam o poder maior neste planeta. Justiça, especialmente social, nem pensar. A paz apenas sobreviverá em inúteis passeatas, discursos vários, mensagens de fim-de-ano, versos que clamam solitários, mas ela jamais se imporá a ponto de reverter nossa realidade atual.Pior, muitos ainda consideram que sonhar com paz e amor, como o fizemos nos anos 60/70, por exemplo, é pura utopia. Pois é, se descrêem tanto do ser humano, de seu destino, como vou eu, ou você, conseguir colocar mais algum tijolo na quase inútil construção de um mundo tão sonhado por nós, quando nos parece que passamos a ser minoria? Quantos já morreram pela paz, quantos mais ainda serão sacrificados?Sabemos que amor apenas rima com terror… eles caminham em direções totalmente opostas. Acredito que o terrorismo tente vingança, algum tipo de justiça às avessas, mas não aceito afirmarem que alguém mate por amor, a algum deus ou à alguma raça. Isso é mesmo inadmissível.Se acreditasse nisso teria que considerar as guerras uma espécie de oportunidade para tantos promoverem algo com um efeito catártico e professarem um “amor” que se sublima punindo, destruindo, torturando, matando. Não, a guerra é e será sempre uma demonstração de insanidade de seres humanos que chegam a este extremo por ambição de domínio, por radicalismos políticos e/ou religiosos, por anseios de poder,  etc.