AS NOITES DE GLÓRIA

    <!– /* Style Definitions */ p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal {mso-style-parent:""; margin:0cm; margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:12.0pt; font-family:"Times New Roman"; mso-fareast-font-family:"Times New Roman";}@page Section1 {size:612.0pt 792.0pt; margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm; mso-header-margin:36.0pt; mso-footer-margin:36.0pt; mso-paper-source:0;}div.Section1 {page:Section1;}–>Ela se mudara para um bonito bangalô que ficava do outro lado daavenida em que ele também morava. Ela tinha 15 anos e vivia com os pais e umirmão menor.   A avenida era larga e havia um valão de cada lado. Começo dos anoscinqüenta, outros tempos. O jovem que morava num casarão do lado oposto daavenida já havia percebido a presença da moça. O nome dela era Glória. Ambos estudavam pela manhã e à tardinha costumavam trocar algunsolhares na distância que os separava. No começo foram apenas olhares discretose fugidios. Ela se mostrava tímida e recatada. Ele, mesmo aos quinze anos, jáera mais experiente, mais vivido. Já tivera experiências outras além dosrápidos namoricos. Em certa tarde a distância se encolheu quando ambos, tomados de umavontade de aproximação que não puderam nem quiseram controlar, acabaramacenando um ao outro. Foram rápidos acenos de mão que logo encorajaram algunssorrisos. Eles já não mais se sentiam tão distantes. Faltava atravessar aavenida Tito Franco. No começo da noite, em certo dia da primavera, ele ousou aventurar-se.Sabia que a liberação para estar fora de casa ia, no máximo, até às 21 horas. Erao limite estabelecido por certas famílias naqueles tempos. Incluídos seusfilhos homens. Já eram 19 horas. Quando atravessava o primeiro valão, elepercebeu que Glorinha já estava de pé, encostada à porta da varanda externa.  Ela usava uma saia estampada, godê. Quando ele se aproximava Glória orecepcionou com um sorriso mais largo. Seu rosto exibia algumas poucas espinhastão próprias da idade. Ela fixou seu olhar no dele e logo estavam secumprimentando num abraço que fez o jovem sentir o delicioso contato dos seios rígidosde Glorinha pela primeira vez. As pernas de Titó tremeram. Além da simpatia que já nutria por aquela jovem, ele sentiu reacender-seum sentimento que tanto desfrutava com Ana, quase diariamente, uma empregadamorena e muito bonita da casa de seus pais que dedicava a ele uma atenção queultrapassava os limites do fato de ser filho dos seus patrões.  Ana era um pouco mais velha que o jovem, porém demonstrava gostar muitodele e não hesitava em ceder aos seus anseios de carinho e de desejo. Muitosforam seus encontros às escondidas, de dia e à noite. Glorinha, por seu lado,parecia conseguir, já no primeiro encontro, degelar qualquer frieza que devessemanter em nome do seu recato de jovem virgem. Enfim aconteceu o primeiro beijo. Claro que fora apenas um beijo leve, tenro, nada cinematográfico. Às 21horas em ponto a madrinha do rapaz, a que mais o controlava, já acenava dajanela da sala para que retornasse a casa. Eles se despediram discretamente coma promessa de que na noite seguinte se reveriam. A mãe da moça também surgirana porta da sala e nem precisou dizer nada a Glorinha. Era assim naqueles bonstempos. Muitos outros encontros aconteceram, inclusive para irem ao cinema, ousimplesmente visitarem parques, ou andarem de mãos dadas a passear, hábito quehoje a maioria dos namorados não usa mais.   Naqueles tempos ninguém “ficava”. Nem havia essa possibilidade. Osaboroso era o encanto do amor jovem, as juras que nem sempre chegavam a sercumpridas, mas eram sempre feitas de coração, e os nossos sonhos. Como sabíamossonhar. Os encontros noturnos na porta da casa de Glorinha, sem uma vigilânciaexplícita ou opressora, e com a cumplicidade da sombra de uma mangueira, emnoites de luar, propiciavam carinhos que com o maior tempo de conhecimento eramliberados de ambas as partes. Carinhos um pouco mais “avançados”, beijos maisardentes e apaixonados.  Tudo tinha um sabor que fica difícil de explicar pela ansiedade queacelerava os corações, tanto pelo amor quanto pelo receio da descobertamaterna. Os desejos afloravam, evidentemente, e iam se tornando permissivos,porém sem ultrapassar limites que ambos sabiam que deveriam respeitar.  Eles namoraram por algum tempo, nunca prometeram um ao outro mais doque sabiam seria possível realizar em plena flor da juventude. Ele ensaioualguns versos, ainda primários, e ofertou a sua amada Glorinha. Certamente elase sentiu feliz por ser a musa de seu primeiro namorado. Ela tinha só 15 anos eos tempos eram outros, outros bem diferentes de agora. Hoje, pelo que vejo, devem considerar o amor de outrora uma tolice, uma”perda de tempo”. Pois é, mas tempo era uma das coisas que mais sabíamosvalorizar.  É este mesmo tempo que hoje me ajuda a viver com muitas recordações, comsaudades tantas, com histórias para reviver nas lembranças e poder contar. Opassado que retorna em imagens tão vivas em nossa mente e que afoga num sorrisoalgumas das mágoas do presente.  Aqui eu me lembrei do que me escrevera, no ano de 2005, meu bom amigo eexcelente poeta paraense, meu conterrâneo, amigo de infância, o Alberto Cohen. Conversávamossobre nossos destinos cruzados e ele, a certa altura, escreveu: “Sabe o que estive pensando? O que podeiluminar a escuridão destes tempos? As lembranças. Nada nos pode tirá-las, poisas vivemos. Como deixar de sorrir ao lembrar a mocinha ensinando-me a dançar obolero, dois pra lá, dois pra cá? E o primeiro beijo, enternecendo-me toda vezque o recordo?”  “Vivemos em mundos paralelos: o de hoje,em que assistimos, estáticos, ao caos, e o de ontem, quando sonhávamos,sonhávamos e sonhávamos. O sonho acabou? Não, ele apenas está guardado eretorna todas as vezes em que precisamos de um sorriso.” O poeta disse tudoe me ajudou a fechar com chave de ouro este texto.

    COMPARTILHAR
    Matéria anteriorCHATICES
    Matéria seguinteA CRÔNICA 700