BACENIANAS

    Ano retrasado, houve um almoço de confraternização dos antigos "habitues" da Rionet – época em que a rede ainda era veiculada somente pelo SISBACEN. Ao final de muitos chopes, admitimos que escrever é "colocar o pescoço de fora para apanhar". Na última festa caipira da ASBAC comprovei o quanto sábia foi a nossa conclusão. Fui "cercado por uma multidão" de leitores que deveria chegar há pelo menos "três" pessoas, dos quais era nítido que, somente um deles, realmente havia lido alguma coisa minha. Bem que tentei conduzir a conversa no sentido de ouvir críticas construtivas aos meus defeitos, ou quem sabe – como desejava ardentemente o meu ego – ser acariciado sobre uma ou outra qualidade encontrada nos meus textos. No entanto, a conversa apontou para um lado contrário ao que eu desejava: disseram que ando amargo demais, que deveria ficar mais "light" e, principalmente, abordar a convivência com os colegas daqui do banco. Argumentei em minha defesa que é inato esse estilo incisivo e que os textos leves e referentes aos colegas bacenianos são publicados no BC-Rio. Fui jogado a nocaute quando refutaram dizendo que o informativo da Secre atinge apenas ao pessoal da ativa e que existe uma boa parcela de público que retira informações sobre o banco lendo o que é publicado no site do Sinal.  Não houve como discordar e como não tenho o dom de a cada vez que abro uma gaveta, retirar de lá uma história, a solução é reviver algumas delas. Para essa primeira história vou colocar como personagem um antigo ídolo: Ubirajara da Cunha Vieira. Funcionário aposentado, Bira é cervejeiro, peladeiro, cozinheiro, amigo, pai, marido e uma figura inigualável. Possui apenas um defeito: é Flamengo! Não sei se o narrado aconteceu com ele. Mas dadas as peculiaridades do caso, só ele merece e é capaz de tê-la vivido. Certa madrugada, ainda na ativa do Banco, Bira descobriu-se muito para lá de Marrakesh, ou seja, sozinho em Ipanema, bastante "tocado" e sem dinheiro. A única solução seria pegar um ônibus e ir dormir na casa de um antigo companheiro de copo e de banco, Roberto Alencar de Carvalhi, na época um poderoso morador da Praia Flamengo. Imaginando que dali qualquer ônibus passaria no Aterro, subiu no primeiro que passou: Jacaré-Jardim de Alah! O famoso 474 (Que, por sinal, não pára no Aterro)! Achando que não dormiria até chegar ao destino, escolheu um banco macio para recostar. Quando acordou, estava no ponto final do 474, no Largo do Jacaré. A solução foi saltar e fazer “uma hora” para pegar o primeiro ônibus de volta. Foi então que viu na calçada bem em frente uma birosca toda iluminada. Aproximou-se devagar, cumprimentou os presentes e ficou observando uma velhinha preparando uma suculenta sopa de legumes a qual não resistiu em experimentar. Logo após, voltou ao ponto final e pegou o 474 em direção à Ipanema, não sem antes jurar pela “mãe mortinha” que dessa feita iria permanecer acordado. Quando deu por si, estava sendo avisado pelo trocador que se encontrava novamente no ponto final do Jardim de Alah. Sem alternativa, ficou esperando a saída do próximo 474 que o deixaria onde queria. Dessa vez, por precaução, pediu ao trocador que o acordasse quando o ônibus entrasse no Aterro do Flamengo. Quando abriu os olhos estavam ele e o trocador, depois de uma roncaria infernal – de acordo com as enérgicos protestos do motorista, impedido de curtir o seu rádio –  novamente estacionados no ponto final, na praça do bairro do Jacaré. Olhou para fora, e a primeira coisa viu foi à barraca da velhinha. O estômago, automaticamente, disparou o alarme.  Foi até lá e tomou outro prato da sopa. Nosso personagem ia abandonando o local para pegar novamente o próximo ônibus, quando ouviu um dos fregueses perguntar a dona da barraca: – E esse aí? Quem é?  E a velhinha respondeu: – Não sei não! Mas, adora, a minha sopa! É capaz de sair lá da zona sul e vir até aqui  apenas para tomar um prato.  Só essa madrugada já veio duas vezes!