BARRAS DA TIJUCA

    Possuo  amigos que,  moradores do subúrbio como eu, não admitem  viverem na zona sul. Dizem que não se adaptariam de  maneira nenhuma. Apesar de interiorano de Friburgo, não compartilho da opinião. Moraria, prazerosamente, nos bairros que se situam entre o Flamengo e São Conrado,  como também na Gávea, Lagoa, na Urca, enfim, em todos eles. Só não o faço porque não reuno condições. Apesar de todos serem lindos e  maravilhosos, tenho um apreço especial por Copacabana. Uma espécie de fascínio.   Para mim,  a verdadeira tradução do Rio de Janeiro é Copacabana.  Admiro aquele formigueiro delicioso, mágico e fantástico. Lugar que pulsa e respira 24 horas, onde há de  tudo, de todas as tribos, nos vários tamanhos,  nas diversas cores e em todos os sabores. O estranho é que esse sentimento não se estende a Barra da Tijuca.Zeca Pagodinho – o novo emergente – anda dizendo que ainda não achou no bairro uma das instituições mais cariocas que  é o botequim.  O máximo que arranjou para tomar suas cervejas e comer um torresmo de tira-gosto,  foi um quiosque de um antigo amigo de copo de Xerém. Outro que não pode morar por lá é o Aldir Blanc. Diz o tijucano que também só gosta de beber em botequim. Mas não é qualquer um não. Para Aldir, botequim tem obrigação de manter a pão-de-ló, pelo menos um rato daqueles que possuem a mania de ficar “deitadão” no pó-de-serra, com as quatro patas para o ar, coçando a barriga. Bares do tipo “pé-sujo” autêntico,  são incompatíveis aos níveis de sofisticação exigidos pelo bairro.Toda quinzena tenho que comparecer a um médico que possui consultório na Barra. Já que o estupro é inevitável, arranjei um jeito de transformar a obrigação num  aprazível passeio de turismo. Vou ao terminal Menezes Cortes, pego um “frescão”,  sento na janela e curto a  paisagem do Aterro, de Copacabana, de Ipanema, do Leblon e de São Conrado, etc. O encanto quebra-se automaticamente, quando vejo aquela placa que anuncia “Sorria você está na Barra”.  Fico com a impressão de que entrei num lugar que é a mistura de Miami com Bagdá, com pitadas de Bogotá. Impressiona-me também o esforço que há por lá para cada vez descaracterizar-se do Rio de Janeiro. Já fizeram até um plebiscito para a emancipação do bairro.Um fiasco!    Nesses passeios, quando passo pelo Leblon não canso de observar uma  daquelas quitandinhas de uma porta da só, características de cidades do interior,  que expõe pregados em suas paredes externas  uns cachos de bananas. E, na calçada, estão sempre à mostra uma caixa de cebolas de um lado e  do outro um saco de batatas do outro. Eu aposto que ali ainda se usam aquelas cadernetas onde as compras são anotadas e pagas somente no final do mês. Na Barra, esse tipo de comércio – que é uma relação de confiança e amizade – é impossível. Todas as compras devem ser feitas em centros comerciais completamente impessoais.   Em outra oportunidade, em Ipanema,  passei por uma rua que tinha uma feira-livre. Percebi nos feirantes a mesma descontração existente quando nos subúrbios. Será que na Barra tem feira livre? Não tenho notícia. Imagino, que se tiver,  deve ser de uma sofisticação horrorosa. Feira-livre para estar à altura da Barra tem que dispor de passarelas rolantes,   iluminação composta por lustres, circuito interno de TV,  ar condicionado nas calçadas como imagina o César Maia  e as barracas de acrílico te que, necessariamente, aceitar cartões de crédito.Andando por Copacabana encontrei umas três barbearias?  Isso mesmo! Barbearias! Da última vez dei uma disfarçada e fiquei prestando a atenção. Ainda fazem barba com navalha e cortam cabelo com aquelas máquinas “zero”. E sabe o que mais? Conservam cadeiras para os seus clientes jogarem uma emocionante partida de damas e continuam sendo ponto de encontro para aposentados falarem  mal do governo. Na Barra, meu amigo, só “hair center”s”, exclusivos dos shoppings  e olhe lá!Já imaginou uma loja de R$1,99 na Barra? No mínimo o autor da idéia será cremado nas fogueiras da Inquisição. E camelódromo? Se surgir algum merecerá uma passeata de protesto, organizada pela família Medina,  na qual serão servidos lanchinhos confeccionados pela firma da Ariadne Coelho (viúva do Jair Coelho, ex-rei das quentinha), sob o patrocínio das padarias Birutas da Vera Loyla.A Barra é tão pedante que chega ao exagero de exibir no seu principal acesso um posto de pedágio! Ate´a criminalidade na Barra é diferente. Por aqui os bandidos geralmente são  provenientes dos morros e evitam ataques à sua própria comunidade. Na Barra as gangues são formadas por jovens da classe média alta, universitários,  que agridem e assaltam moradores do próprio Bairro. Até as alcunhas são modernas. Nada de Comandos ou Falanges, por lá quem controla a violência  é a gangue Talibã.Sabia que você iria me fazer a pergunta! E se, de repente,  recebesse como herança uma mansão na Barra? A soberba não é um dos meus principais defeitos! É claro que iria morar lá! Não sem antes tomar uma providência imprescindível: fazer um curso intensivo de inglês.