BUTCH CASSIDY E SUNDANCE KID

    Ao lado de “Casablanca” considero “Butch Cassidy and Sundance Kid” um dos cinco clássicos do cinema. Somente a cena do passeio de bicicleta de Paul Newman e Katherine Ross ao som de “Raindrops Keep Fallin” on My Head” valeria o dinheiro do ingresso. Gosto tanto dessas obras que dos filmes que comprei são os únicos que consigo rever. Nem os “queridinhos” da crítica especializada como  “Encouraçado Potenkim”; “Cidadão Kane”; “Laranja Mecânica”; a “Megera”  e o “Garoto” ou “Tempos Modernos”, ambos do Chaplin, nunca me motivaram a uma “revisita”.  Entretanto, andei lendo que o diretor Walter Salles confirmou que está à frente do projeto de uma nova versão da saga da famosa dupla de assaltantes norte-americanos. A princípio, imaginei que seria apenas uma “releitura” do clássico do faroeste realizado em 1969. Mas não. A nova versão trará fatos desconhecidos sobre os assaltantes, trazidos à tona pelo escritor chileno Luis Sepúlveda.A versão oficial é uma aventura despolitizada. Narra que quando fugiram em 1901 acompanhados pela professora Etta Place, Cassidy e Kid acabaram em Buenos Aires, cidade excessivamente cosmopolita, que os deixava deprimidos. Decidiram partir para a Patagônia, onde compraram terras com uma parte do dinheiro que haviam roubado de bancos dos EUA.Antes de partir para a Patagônia, a dupla passou por Montevidéu, onde ouviram falar de um escritor americano – e notório alcoólatra – chamado Arthur Chapman, que também escrevia para um jornal nos EUA. Butch Cassidy e Sundance Kid pagaram o “jornalista” para plantar uma notícia falsa contando que eles haviam morrido em um tiroteio na Bolívia. Assim, se viriam livres da perseguição dos caçadores de fora-da-lei. Ou seja, a  versão que inspirou o filme dirigido por Roy Hill em 1969, mostrava os simpáticos fora-da-lei fugindo dos EUA e morrendo emboscados na Bolívia. O escritor chileno comprovou que esse foi o início da história. Já a história real, pesquisada por Sepúlveda, liga o banditismo aos movimentos sociais latino-americanos e conta que depois de se virem livres dos perseguidores com a notícia publicada nos EUA, eles foram para suas terras na Patagônia e construíram uma casa simples, de madeira (ainda existente) e  começaram a criar gado. Vivendo uma vida pacífica, os dois seriam surpreendidos mais tarde.Um único homem não comprou a história descrita por Chapman no “Baltimore Journal”: Martin Sheffields, um jovem xerife de 20 e poucos anos. Julgava Butch Cassidy e Sundance Kid por demais inteligentes para caírem no tipo de emboscada narrada por Chapman.  Esse xerife conduziu sua própria investigação e encontrou os criminosos. Chegou lá no mesmo momento em que Etta Place, a companheira de Butch Cassidy, descobriu que tinha câncer e voltou para se tratar nos EUA.Butch Cassidy e Sundance Kid foram presos por Martin Sheffields mas no caminho de volta a Buenos Aires ele acabou se simpatizando com a dupla. Não os denunciou nem recolheu a recompensa pela captura daqueles que eram os homens mais procurados da América. Martin Sheffields acabou se encantando também por Patagônia, onde viveu como fazendeiro. Teve 11 filhos com índias do lugar. Cinco desses filhos ainda estão vivos hoje, a mais nova com 77 anos de idade.Dois anos depois, mais um acontecimento mudaria a vida da dupla. Na América, Etta Place encontrou por acidente um membro da velha gangue de Cassidy, Big Nose Flat, e acabou contando a ele o paradeiro dos ex-companheiros. Big Nose viajou até a Patagônia e exigiu da dupla um pedaço de suas terras, além de dinheiro.Como eles não tinham mais dinheiro, acabaram assaltando um banco na Argentina para o comparsa não bater com a língua nos dentes. O assalto acabou com uma pessoa morta pelo Big Nose e o estrago chamou a atenção para a dupla. Eles decidiram cair na clandestinidade até conhecerem um anarquista, o imigrante espanhol Antonio Soto. Entraram para a luta armada e, em uma confusão política, foram emboscados e mortos por carabineiros chilenos.Como só conhecia a história na versão irreal, contabilizei meus prejuízos: o DVD, tudo bem, comprei barato numa promoção. De versões oficiais da História desconfio há muito tempo. Mas… quanto vale a desmistificação de uma linda fantasia. Não tem preço.

    COMPARTILHAR
    Matéria anterior“SPAM-NANDO”
    Matéria seguintePRÓSTATA