CARTEIRADAS

    A Maria Lúcia Dahl contou no JB que estava caminhando, de tardinha, por uma rua de Los Angeles quando foi parada por dois policiais que lhe pediram os documentos. Revirou a carteira e não achou nada. Tentou explicar que era uma manequim brasileira dando umas voltas, essas coisas, mas, logo notou que – para a polícia de LA – é inadmissível se andar a pé pela cidade. Foi quando teve a “brilhante idéia” de apresentar-lhes um cartão de visitas que havia recebido do ator Robert Wagner. Entre pasmos e incrédulos os policiais pediram-lhe mil desculpas, sem deixar de sugerir-lhe o aluguel de um carro. A “carteirada” da Maria Lúcia deu bom resultado. Mas, a minha… Um componente da nossa turma que estudava medicina em Vitória em plenos anos 70, auge do AI5, realizou uma farta distribuição de carteirinha “frias” de acadêmicos entre os amigos. Vivia dando um jeito de arranjar oportunidades de exibir a danada da carteira, quando numa madrugada, véspera da noite de São João, conversava junto à colegas numa esquina e de repente estacionou bem em frente a nós uma camionete da polícia. Era daquele tipo fúnebre, preta, com a sigla DOPS em evidência nas portas. Saltaram quatro truculentos policiais de arma em riste, pediram os documentos, revistaram todos, fizeram mil perguntas e concluíram que ali não havia nenhum subversivo. Só me toquei que havia apresentado a minha carteira de “médico” quando uma das “autoridades” ao me devolver o “documento”, fez uma pergunta que quase me jogou para trás: – “Qual a sua especialidade?” – Sem ainda ter conseguido me refazer do susto respondi o que me veio na cabeça: pediatria! A emenda não deixou de piorar o soneto. O sujeito fez um pedido inusitado: “Doutor, minha filha está ardendo de febre em casa. Nenhum remédio abaixa! Não dava para senhor dar uma olhadinha nela não?”.Sem saída, tive que confessar a fraude. E aí não houve dotô que remediasse a questão. Os policiais queriam levar todo mundo preso e ainda por cima cismaram que o restante também mentia e que deveríamos fazer parte de algum “aparelho”. Depois de muitas juras e apelos, conseguimos que apenas eu fosse levado ao distrito policial.Uma duas horas depois adentra a delegacia uma comitiva convocada pelo meu pai, que ia do “Lulu Carne-Seca”, famoso mendigo da cidade ao Padre José, pároco da Igreja Matriz de Friburgo fazendo uma barulheira tão grande que fui imediatamente dispensado para ir embora para casa. Na noite de São João, inconsoláveis, ficamos olhando nossas carteiras participarem do braseiro que assava as batatas doces. Ao mesmo tempo em que, radiantes de felicidade, nossos pais brincavam de pular a fogueira.  

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