CORPINHO DE VIOLÃO

               De acordo com  crônica do Verissimo domingo retrasado, a derrocada das mulheres de coxas grossas, que era o padrão de “mulher boa”, aconteceu a partir da derrota de Marta Rocha, por excesso de quadris num concurso de Miss Universo. Aos poucos o tipo longilíneo se impôs, e hoje nem entre os travestis, esses nostálgicos de virtudes femininas  em desuso, se encontra o formato antigo.            E foi estimulado pelas incontáveis fotos de maiô da baiana, que passei a ser ardoroso fã das mulheres de cintura fina, amplos quadris e coxas grossas que vinham afinando até chegar aos pés, ou seja, que possuíam o “corpo de violão”.              O cronista Sérgio Porto, solidificou a minha admiração pelo padrão “violão”. Parodiando as listas das mulheres mais bem vestidas da alta sociedade, criou a seção “As certinhas do Lalau”, com fotos e legendas de fino humor, das “mais bem despidas do país”. Por ali desfilaram Carmem Verônica, Anilza Leoni, Virginia Lane, vedetes dos teatros de revista.            Atrizes como Norma Benguel, Odete Lara, Darlene Glória e Leila Diniz, fizeram a mim e a muito homem compromissado “arriscar a cabeça” para ver um filme num “cinema poeira” com uma delas, na esperança de que surgissem nuas tudo do pescoço para baixo.            Os shows realizados pelas mulatas do Sargentelli, em cima de sandálias de salto 12 e com o corpo de violão à mostra em minúsculos biquínis, fizeram muita gente de “ilibada reputação” – já com o “automático ligado” – perder a vergonha e as estribeiras e subir ao palco para cair no samba agarrado a uma elas. Não imagino a reação das suas acompanhantes.            Ser madrinha de bateria nos desfiles das escolas de samba exigia “dizer” no pé e mostrar corpo “violão” perfeito. Luiz Brunet e Luma de Oliveira preenchiam os dois quesitos.  Atualmente, a única exigência é ser artista (algumas pagam pelo posto), ou, uma dessas “poposudas’ cheias de músculos, sem nenhuma feminilidade, que mais parecem lutadoras de vale-tudo.            Tenho a impressão que a linda mulata Valéria Valenssa, a eterna Globeleza, símbolo máximo do desejo e da admiração dos homens e das mulheres, foi o último exemplar em destaque de um “corpinho de violão”.              Como observou João Ubaldo Ribeiro “parece que existe qualquer coisa na malhação de hoje em dia que não deixa a cintura afinar. O tronco da mulher parece um retângulo sem graça e sem mistério. A mulher violão legítima, natural, padrão nacional, está em desuso, ostracismo mesmo, mais uma vítima da globalização, mais uma sobra que gradualmente se esvai no passado e que, no futuro, todo mundo talvez se esqueça que existiu”.

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