CRIOULA PETISTA

    Como eu, talvez você nunca tenha ouvido falar em Saartjie Baartmen – a vênus hotentote – uma jovem sul africana que, durante o período colonial francês, foi transformada em atração de circo na Europa, continente em que foi posta ä vista desnuda nas ruas como símbolo da superioridade branca. Uma matéria de Suzanne Daley para o The New York Times, cujo texto posteriormente, foi adaptado, traduzido e publicado pelo Jornal do Brasil, formaram os alicerces para esta readaptação do que se sabe sobre sua história. "Saartjie, morta em 1815, nasceu na África do Sul, no fim do século 18, em Eastern Cape e mudou-se aos 20 anos para um barraco nas cercanias de Cape Town, onde conheceu um médico inglês, Willian Dunlop, que a persuadiu a viajar à Inglaterra em 1810 com a promessa de fazer fortuna exibindo o corpo. Lá, grupos anti-escravagistas pediram ao governo que suspendesse o show. Mas a corte de Londres entendeu que havia um contrato entre ela e Dunlop. Em 1814, um ano antes de sua morte, Saartjie foi levada num circo para a França. Em Paris virou atração nas festas da alta sociedade. Em uma delas, estava o cirurgião-geral de Napoleão, George Civier. Ele se interessou em estudá-la ao vê-la nua, exposta numa redoma e apresentada como uma exótica selvagem". Oferecida em exposição a platéias interessadas em ver as nádegas salientes e o grande órgão genital, Baartman morreu pobre, tuberculosa e sfilítica. Sem direito a enterro. Foi dissecada e refeita em molde d gesso pelo cirurgião de Napoleão. Teve o esqueleto, o cérero e os “rgõa genitais retirados e mostrados em jarras de Musée de L”Homme, em Paris. Somente a partir de 1976 é que os restos foram isolados da curiosidade pública. Com o fim do "apartheid", resgatar o corpo de Saartjie virou objeto para a África do Sul, interessada em liquidar ess metáfora do país em séculos sob jugo de conquistadores. O ex-presidente Nélson Mandela bem que tentou, pedindo ao presidente François Miterrand uma ajuda de 1994. Dois anos depois, o primeiro-ministro Alred Nzo repetiria, formalmente, o pedido. Em vão. "A restauração da nossa dignidade e humanidade não será completada enquanto Saartjie Baartman estiver naquele museu". No início do ano, o Parlamento da França, que classificou tal comportamento como "uma luta entre a incompetência e o absurdo", encerrou este capítulo sórdido de sua história ao aprovar a devolução `Africa do Sul os restos mortais de Saartjie Baartman. Entre surpreendidos e atônitos ao verem o caso de Baartman caminhando a um final digno, representantes do governo africano, esperam entre desconfiados e ansiosos pelo dia do seu retorno, até porque, como acontece também por aqui, não basta a aprovação do senado, é necessário o referendo do Presidente da República. O anúncio do Senado francês, coincidiu com a presença em Brasília,na mesma época, da Chefe do Alto Comissariado dos Direitos Humanos das Nações Unidas, Mary Robinson. Entre coisas, Mary veio avaliar as medidas aditadas pelo governo federal para combater a discriminação racial no país. Paralelamente ao anúncio da devolução dos restos mortais de Saartjie transcorria o II Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, cidade que abrigou por uma semana, parcela significativa do mundo pensante. Sob todos os olhos e ouvidos foram discutidos temas diversos. Entre eles a premente necessidade de que não haja o mínimo esmorecimento na luta pela justiça social em todos os seus aspectos, até porque, os adversários continuam vivos, fortes e perigosos. E, também, coincidentemente aos três acontecimentos citados daquela mesma semana, houve a declaração do governador de Brasília, Joaquim Roriz, incitando a claque contra um militante do PT, seu eleitor nas últimas eleições, com a frase: "Ali está um crioulo petista. Eu quero que vocês dão(sic) uma salva de vaias nele. Muito se poderia falar sobre Roriz, mas ele não é digno (o termo adapta-se a qualquer sentido que possa Ter o termo). Pelo que se ouviu, não é preciso ser muito sagaz para que, na hipótese do Governador de Brasília Ter tomado conhecimento da incrível saga da sul-africana, adivinhar seu julgamento sobre a mulher: Saartjie Baartman, já naquele tempo, não deve Ter passado de uma perigosa ""crioula petista””. Foram incontáveis as manifestações contrárias aos atentados as causas sociais e democráticas, assim como gramática (salva de vaias é tão impróprio como buquês de espinho, não?) perpetrados – impunemente – por Roriz. Porém, nadado que li, vi ou ouvi chegou perto do perfeito e irreparável comentário de Dora Kramer, no JB, sobre a ocorrência: O senho chamado de "crioulo petista" pelo governador de Brasília, Joaquim Roriz, durante a solenidade pública, tem na cor uma contingência e na opção política uma circunstância. Já Roriz, que pediu `massa: "Dão uma salva de vaia nele" padece de problema realmente grave. A falta de intimidade com o próprio idioma, cujas regras gramaticais obrigariam – abstraídas as da compostura – que ele ordenasse aos correligionários: "Dêem um vaia nele". É a situação da mulher feia que insulta o bêbado e recebe de volta a informação de que "a diferença é que amanhã eu estou bom". Cor da pele, assim como opção política, não é defeito. Já populismo, autoritarismo, racismo e ignorância, não têm jeito.