DEMÓSTENES

    O cronista e escritor Zuenir Ventura afirmou numa entrevista que em seu último livro, “Sagrada Família”, deixou de incluir algumas passagens verdadeiras, porque pareceriam mentirosas, afirmando: “tem horas que a realidade é mais fantasiosa do que a ficção”.·.No enredo do caso do ex-senador Demóstenes Torres, há cenas que justificam a afirmativa. O procurador federal da justiça Demóstenes Torres foi eleito senador por Goiás, com dois milhões de votos. No cargo, destacou-se nacionalmente por ser um inflamado e ardoroso defensor da ética, da justiça e da moral, apontado o dedo em riste para todo lado. Como se diz nas histórias infantis, “enquanto isso” era o principal articulador dos megalômanos sonhos de poder a todo custo (literalmente) do bicheiro Carlinhos Cachoeira, protegendo seus interesses e articulando os diversos tentáculos em todos os níveis governamentais. Cachoeira orientou Demóstenes para se infiltrar inclusive no Palácio do Planalto e se aproximar da presidenta.Para blindar as conversas, Cachoeira presenteou Demóstenes com um celular comprado nos Estados Unidos, com a garantia (do bicheiro?) de que seria imune a qualquer tipo de “grampo”. Foi justamente desse telefone que a Polícia Federal gravou as conversas entre o bicheiro e o senador. Um calculado presente de grego. O aparelho faz parte dos brindes de Cachoeira para Demóstenes, que, dizem, atingem a cinco milhões de reais.O suplente de Demóstenes, empossado nesta sexta-feira, é Wilder Morais, um empresário tão rico que se esqueceu de incluir entre seus bens na última declaração de renda dois shoppings. Wilder Morais – a quem Cachoeira, que o iniciou na política e considera “um bosta” – é ex-marido de Andressa Mendonça, atual esposa do bicheiro. Há quem afirme que Demóstenes foi alcoviteiro e cupido da nova união. Graças ao que prevê a legislação eleitoral, Wilder será senador sem ter recebido um único voto (É verdade. Não é ficção.). Mas, pode alegar que merece o cargo, pois colaborou com R$ 700 mil para a campanha de Demóstenes.Está tudo pronto para que Demóstenes Torres, cassado na última quarta-feira por falta de decoro parlamentar (abuso das prerrogativas, recebimentos de vantagens indevidas, abuso de poder, prática de ato irregular grave, etc) e a fruta mais preciosa do engradado de “laranjas” de um bicheiro, reassuma seu antigo cargo de procurador da Justiça de Goiás, com salário de R$ 24 mil e direito a dois assessores. Terá a responsabilidade de conduzir inquéritos de corrupção, desvios, imoralidades, formação de quadrilha. Mais uma vez, a ficção se rende a realidade.