DESMANCHA-PRAZERES

    Deu no jornal que daqui a duas décadas boa parte do mundo, como o conhecemos, terá sumido. Em vez de celulares com mil funções e micros de mão, teremos um vazio de objetos, com substitutos virtuais, feitos apenas por software. A matéria apontou os muitos sinais de que a virtualização está a caminho: o e-mail aposentou as antigas cartas e está se preparando para disponibilizar on-line os documentos, com certificação e autenticação digitais. Está tudo muito bem, está tudo muito bom. A informática, não há que negar, é  revolução sem precedentes. Entretanto, veio com um defeito de fábrica em que  recall nenhum dá jeito: em alguns casos atua como autêntica desmancha-prazeres, além de jogar no chão soberbas humanas duramente cultivadas. Ler o livro de cabeceira no laptop tem gosto de tango dançado com irmão, é ou não é? A satisfação de ler não vem só do conteúdo. Imprescindíveis o contato com o livro, seu cheiro, as anotações de rodapé, as linhas sublinhadas e, principalmente, a possibilidade de ir e vir daquelas páginas de passagens marcantes, reveladoras, inspiradoras.Não creio que alguém cometa erros gramaticais e/ou ortográficos por puro deleite. Até pouco tempo, nos eram facultados o direito da dúvida e a curtição da pesquisa da forma culta: o pai-dos-burros estava aí para isso mesmo.Agora não. Os corretores ortográficos são implacáveis e exagerados. Deduram, instantaneamente, toda e qualquer falha, com seus verdes ou vermelhos espalhafatosos.   O pior é que nem sempre estão certos.  A informática é insensível à fantasia.  Adaptada aos dias de hoje, a personagem de Fernanda Montenegro em Central do Brasil não faria cartas, mas e-mails. Os antigos e românticos bilhetinhos apaixonados dos parques de diversões –  em letra caprichada e papel perfumado – se transformaram em "torpedos" do celular.   A informatização jogou no lixo o último orgulho pessoal que ainda cultivava: o de ter boa letra – o que, virava, mexia, valia um elogio. Depois da implantação das maquininhas de preencher cheque, nunca mais recebi, da mocinha bonita do caixa, uma moção de louvor à minha caligrafia!   O ápice dessa revolta aconteceu dias atrás, ao iniciar uma carta à moda antiga, com papel, caneta e saudade.  Constatei desapontado que minha letra, esculpida por força de muitos cadernos de escrita e inúmeros puxões de orelha da minha mãe, voltara a ser um garrancho. De quem é a culpa? Do hábito de usar, quase exclusivamente, o teclado do micro! Insaciável, a informática me arrumou mais essa.  Não satisfeita com a intromissão nas massagens ao meu ego, ainda me fez desaprender de escrever à mão.   

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