GREVE PELOS DEVERES

    Odeio greves! A simples menção da palavra já me causa calafrios. Entretanto, como filho de Mario e Aracy Damasco, desde cedo aprendi que toda decisão de maioria – mesmo com o nosso voto contrário – obrigatoriamente, tem que ser respeitada. Daí que, nunca, nesses 28 anos de BC, experimentei o “gostinho” de furar uma greve, prato que só de olhar imagino insípido, insosso, frio e inconsistente e que deve resultar da mistura de ingredientes como a falta do espírito de solidariedade, com a ausência do embasamento democrático, acrescido das falhas no mecanismo que acionam o amor próprio. E o que me deixa mais fulo da vida é que nasci e vou morrer assistindo em toda campanha salarial a mesma queda de braço: sem diálogo e na indigência da política de recursos humanos, o patrão quer sempre pagar o mínimo e o empregado receber o máximo.  De qualquer forma, mesmo com toda essa aversão a greves, estou certo de que na outra encarnação fui um sindicalista. Isso porque nutro uma inveja danada dos condutores das assembléias, dos oradores inteligentes e convincentes (mercadoria em falta) que levam a multidão do delírio à indignação, dos “piqueteiros”, dos porteiros, dos “convencedores” e daqueles que, durante o movimento, chegam às 7h, sentam, lêem e só levantam à noite.Passei parte destes 32 dias de greve, observando o “povo” baceniano. E a conclusão é a de que “pinta” de tudo, desde aqueles que deram uma “meia volta, volver” nos seus caminhos (penso que, em boa parte dos casos, a radical troca de posição se baseia na ocupação ou não de um cargo de comissionado), até aos que “furam” porque não acreditam em greves, sindicatos e consideram sua obrigação trabalhar em qualquer circunstância. É um direito! Mas, eles não seriam mais coerentes se dessem procurações ao banco para depositar os possíveis ganhos das greves na conta de alguma instituição de caridade?    Porém, o que me deixou espantado é de como – estatisticamente – as coisas “batem”! O perfil dos grevistas “juramentados” é o de pessoas solidárias, trabalhadoras, respeitadoras, honestas, que vestem a camisa do banco, são assíduas, pontuais e principalmente amigas, do tipo Dagma e Jorge Mello, que destaco em homenagem aos demais.  Antes de prosseguir na pretensa análise quero dizer que concordo que existem funcionários que pelas funções que realizam, tenham necessidade de estarem em seus postos. Assim como sei que por algum defeito de fabricação e/ou de formação surgem servidores que ficam transtornados – sinceramente – em ter que faltar por greve. Seus rostos denunciam um pavor digno de encontro com Drácula em noite de sexta-feira, 13. E qual é o perfil dos “fura-greves”? Um tipo é formado por aqueles que nunca “estão nem aí para o banco”, são íntimos dos atrasos, das faltas, das licenças para os tribunais, da improdutividade e em toda a greve é a mesma coisa: comparecem todo dia, cumprem os horários e se colocam à disposição dos chefes para trabalharem depois da hora, sábados, domingos e no que pintar. E a “cara de pau” é de tão grande, que não se importam nem um pouquinho em exibir os defeitos de caráter de forma explicita e publica durante as paralisações.   O segundo grupo é formado por aqueles que se julgam “essenciais. São típicos: surgem escondidos atrás de grandes óculos escuros usados em velórios, portando pesadas bolsas que colocam diante do peito para que, com os cotovelos em riste e passada militar, possam entrar sem serem incomodados. Após “furarem”  vão direto para o banheiro. Já viu, né? Diante do espelho, miram-se e repetem a mesma pergunta, sempre na expectativa de uma resposta diferente: – “espelho, espelho meu, existe neste banco alguém mais importante do que eu?” – Porém, o espelho é cruel: – “Sim, todos os grevistas lá embaixo!”. Desiludidos,retomam os seus imprescindíveis “afazeres”: telefonar, entrar na internet e jogar paciência. Mas, sabe o que dá mais raiva? É que essa gente é a primeira a calcular e imaginar o que representa no orçamento o dinheirinho a mais e que passado um tempo, ainda tem a coragem de perguntar: – “lembra daquela “nossa” greve de 2005 que durou 32 dias”?   Não queria, mas vou atender ao apelo do meu lado maquiavélico e propor aos sindicatos um movimento inédito no BC: Uma greve em defesa do cumprimento das obrigações básicas do empregado! Seguinte: os chefes, que atuariam como “convencedores e “piqueteiros”, só deixariam entrar no banco aqueles que “vestem a camisa”, trabalham, cumprem as obrigações, etc. A paralisação duraria o tempo que cada um precisasse passar no purgatório para se redimir.   Para finalizar, uma pergunta: tem aumento de salário que pague a satisfação de ver  essa gente toda barrada pelos chefes lá na calçada, sendo obrigada a fazer greve?