DIA DE DOMINGO

    Quando ainda não freqüentava a escola, não entendia a ansiedade de dois vizinhos estudantes pela chegada dos finais de semana, já que, para mim, os dias, de segunda a sábado, eram todos iguais. Distinguia o domingo porque o almoço nesse dia era muito mais caprichado.             Anos depois, estudante de colégio de horário integral, adorava os sábados porque me  permitiam dormir até tarde. Desfrutava ao máximo de todas as suas horas, inclusive porque tinha permissão de chegar depois da meia-noite em casa. Os domingos até que começavam bem, com o futebol na calçada e o almoço em família que durava o resto da tarde.  Contudo, sempre terminava melancólicos com a perspectiva do "caído" ajantarado, a voz do Nélson Gonçalves na rádio-vitrola, interpretando "Boemia" e a lembrança de que a partir da segunda-feira, seria obrigado a madrugar num frio terrível, para enfrentar mais uma interminável semana de aulas.            Estudando e trabalhando no Rio, mas sempre com a cabeça na "terrinha", a felicidade chegava na sexta quando subia a serra num ônibus que partia de Niterói a meia-noite, apelidado de "Fantasma". Em Friburgo, mais uma vez utilizava os sábados para fazer tudo o que tinha direito durante o final de semana. Acordava bem tarde aos domingos meio "jururu" e já saudoso de casa. Nem o almoço especial da minha mãe e as inéditas histórias do meu pai, guardadas para esses momentos, levantavam o meu astral. Várias vezes, na descida da serra de volta ao Rio nas tarde de domingo, ameacei em descer do ônibus e me embrenhar na mata para nunca mais sair.             Os anos de trabalho no BC foram paradoxais. Muitos dos meus finais de domingo foram sorumbáticos ante a perspectiva de voltar a trabalhar no dia seguinte. Entretanto, houve bons anos. Aqueles em que, pelo alto astral do setor, era um prazer pegar o elevador na segunda feira. Entre eles, os que trabalhei em S. Paulo, mesmo longe da família. Todavia, a música, tema do "Fantástico" das noites de domingo antes das viagens, me causava uma precoce saudade de casa.            Estou aposentado e a procura de novas emoções que não encontrei até agora. Os dias são iguais aos da minha infância antes de ir para a escola. Só sei que é domingo porque o almoço nesse dia é muito mais caprichado.