“É TUDO DOTÔ”

    Distraído lendo o jornal, só me dei conta de que estava sozinho na sala de espera ao ouvir chamarem o meu nome. Dei de cara com uma jovem toda vestida de branco , muito bonita que, me encarando com ar de séria, estava encostada numa das portas do recinto. Exalava mau humor. A recepcionista nos apresentou: aquela era a "Dotôra Claudia" e eu o último cliente. Informados um sobre o outro, entramos numa sala e sentamo-nos. Pegou a ficha que havia preenchido quando cheguei e leu rápidamente. Sem levantar os olhos informou-me que, a partir daquele momento, eu teria que realizar os procedimentos fisioterápicos que ela prescreveria. Ponderei-lhe a decisão, lembrando a "dotôra" que era a primeira que ela me via, não dignara-se a examinar os meus tornozelos e que sequer havia reparado no laudo e na prescrição de uma médica ortopedista, com doutorado em fisiatria, com quem me tratava há dois anos e que conhecia “”de cór e salteador" o meu problema. – Desculpe a pergunta, mas a senhora é doutora em quê? Perguntei meio desconfiado. – Fiz faculdade de fisioterapia! – Muito obrigado pela "atenção" !Bom dia! Foi o que disse antes de levantar e sair. Faz parte da cultura nacional copiar e depois avacalhar o que deu certo ou é levado a sério em outros países. Uma delas é a questão do doutorado. Médicos, dentistas e advogados, desprovidos de qualquer extensão, são doutores, enquanto que, estranhamente, economistas, administradores de empresas – mesmo com todas as graduações possíveis – são "apenas" técnicos. Médicos, quando residentes, ainda se justifica. A residência é uma graduação efetiva. Na engenharia é também bastante curioso: os civis e arquitetos são doutores. Os mecânicos ou os eletricistas "profissionais". As demais áreas da saúde não são diferentes: pela amplitude do trabalho, é óbvio de que aquele que cursa e trabalha com enfermagem é muito mais "dotô" do que um fisioterapeuta. Porém, enfermeiros experientes, diplomados em cursos superiores, não passam de simples enfermeiros. Fico também pensando em quem estuda veterinária: Deve ser frustrante perceber que não terão o prazer de serem tratados de "doutor"" por nenhum paciente. Mas os esforços são grandes! Nos plásticos dos vidros dos carros dos estudantes: a palavra medicina está grifada em grandes letras grandes. O termo veterinária, vem lá embaixo, todo escondidinho, cheio de vergonha. Atualmente é raro, mas houve tempo em que a vaidade e a inveja de pessoas despidas de "sangue azul", levou-as a comprarem títulos de nobreza. Hoje, o atalho para a aceitação pública é trilhado através do diploma de advogado. Aproveitando a flagrante degradação da profissão, os rejeitados socialmente, contornam as exigências, ostentando emoldurados diplomas e reluzentes anéis que o simples pagamento da mensalidade garantiu-lhes. Transformam-se "dotô" e "dotôra". Até patentes militares eram desvirtuadas. Fazendeiros analfabetos eram reverenciados como "coronéis". A revolução de 64 conseguiu que patente voltasse à exclusividade das forças armadas A torre de babel que é o sistema educacional brasileiro, trata como "superior" qualquer curso dessas Macdonald”s do ensino que proliferam por aí. Há no país mais de mil instituições superiores, oferecendo mais de 10 mil cursos. E o que acontece na prática: para ser jornalista é necessário o curso da faculdade. Mas não há necessidade do diploma se trabalhar na área. Luiz Pinguelli, cientista de renome internacional, não passa de um físico. Marcelo Caron, médico que matou pelo menos 5 das mulheres em que realizou cirurgias de lipo-aspiração, esse sim, é "dotô". Não discuto o político. Não gosto! Mas olha só a bagagem: poliglota; professor universitário no Brasil e no exterior; "Doutor Honoris" causa de vários países; sociólogo com doutorado na Sorbone, merecedor de incontáveis condecorações internacionais; autor de vários livros traduzidos para diversas línguas, inclusive o russo; deputado federal; senador; ministro da fazenda e duas vezes presidente da república eleito pelo voto popular. É o doutor Fernando Henrique? Não! É o professor Fernando Henrique! Ou, como determina a nossa atual normal culta, apenas, ou simplesmente, o FH.