ELEIÇÕES BRASILEIRAS II

    É muita ingenuidade de nossa parte imaginar que uma eleição pode ser ganha, democraticamente, pôr quem convence a um maior número de eleitores. Isso é do tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça como diria o Felipão. Se não é assim, então vamos analisar juntos, os dados financeiros conhecidos dos pré-candidatos até o último mês de abril. Segundo o PSDB, o pré-candidato José Serra já custou R$913 mil: R$97,5 mil em pesquisas, R$196 mil para aluguel de jatinho, R$50 mil para assessores, R$85 mil para a pré-convenção dos tucanos, R$484,5 mil no programa político de 6 março. Os tucanos não vão alugar escritório político pôr ora. Usarão a estrutura do partido em Brasília. A convenção nacional, em junho, está orçada em R$350 mil. Usava jatinho e viajava, em média, duas vezes pôr mês, totalizando cerca de R$120 mil. Fazia pesquisas de intenção de voto (R$60 mil) e qualitativas (R$40 mil). Gastava R$30 mil com assessores, um fixo e outros contratados para tarefas pontuais. O PFL disse que em 2001 economizou R$4 milhões do fundo partidário, que bancaram a propaganda de Roseana Sarney até a renúncia. O presidenciável Luiz Ignácio Lula da Silva opta por vôos de carreira. Quando os horários não permitem, usa jatinho – em média R$15 mil por dia. As diárias de hotel variam entre R$120 e R$150, por pessoa em uma comitiva – que, no caso do PT, em geral conta com cinco integrantes. O principal gasto do partido até o inicio oficial da campanha será com os programas políticos: R$320 mil cada. Ainda governador, fez agendas de pré-candidato em viagens oficiais. Seus deslocamentos e estadias também são pagos pelo PSB e pela Associação dos Homens de Negócio do Evangelho Pleno. O PSB informou que Garotinho recebe descontos em diárias de hotel e restaurante, que seriam concedidos porque sua imagem "dá IBOPE". O partido não apresentou relação consolidada de despesas e, como sempre, os dados financeiros referentes aos ex-governador do Rio são completamente obscuros e inconfiáveis. O PTB informou que investiu cerca de R$30 mil mensais desde agosto do ano passado no pré-candidato. Pagou pesquisas, viagens e estadias. Os traslados e diárias são bancados pelo próprio candidato ou por entidades e empresas que o contratam para palestras por cachê de R$ 6 mil. Ciro organiza sua agenda aproveitando as viagens. Em Brasília, por R$15 mil, o PTB alugou um apartamento e um escritório. Só o cinismo e a arrogância do deputado Roberto Jefferson, atual dono do partido, pode supor que alguém vá acreditar nessa "indigência" de gastos. Em 2001, o fundo partidário, cujos recursos estão previstos no Orçamento da União, distribuiu R$88 milhões entre 30 partidos. Os tucanos ficaram com a maior fatia – R$17,4 milhões (19,58%). O PFL é o segundo da lista de beneficiários, com R$11,1 milhões. O bolo de 2002 soma R$ 91 milhões. Além do fundo, existem as doações de simpatizantes. No PSDB, o secretário-geral do partido, deputado Márcio Fortes(RJ), é a pessoa que mais dá dinheiro ao partido. Segundo a prestação de contas de 2000, ele doou 245 mil reais ao PSDB. Neste ano, o próprio Fortes admitiu que já deu ao PSDB R$ 60 mil. Do total doado ao PSDB em 2000 – R$1,15 milhão – a contribuição do deputado representa 21% do total. Segundo o deputado o dinheiro repassado ao partido vem de seu patrimônio, de sua poupança. Paralelamente ao anúncio das despesas dos pré-candidatos, Carlos Heitor Cony, publicava sua visão sobre as eleições brasileiras: " …para o público externo, que somos todos nós, a sucessão presidencial deste ano parece uma questão política. E, para os mais otimistas, uma briga ideológica. Não embarco nessa canoa. No atual estágio, quando estão se projetando alianças e candidatos, a batalha se trava nos bastidores dos financiadores das campanhas. Pesquisas daqui e dali garantem que uma eleição presidencial custa meio bilhão de dólares, dinheiro de que nenhum partido e muito menos nenhum candidato dispõe no momento. Captar esse dinheiro é difícil e, ao mesmo tempo fácil. Basta um candidato ser considerado palatável e seguro, confiável aos financiadores, e tudo lhe será dado, como as bem-aventuranças prometidas no Sermão da Montanha. Daí que a verdadeira campanha não está ainda nos jornais, nas entrevistas do rádio e daTV. De certa forma, elas podem orientar uma tendência, rifar um pretendente, eliminar uma corrente de opinião. O que conta são os compromissos subterrâneos que estão sendo tomados, sugeridos, previstos e orçados. O nome pouco importa. Fulano ou sicrano procurarão ou serão procurados em tempo hábil para garantir a vitória não do melhor, mas do mais confiável ao sistema que mudará para continuar o mesmo". Tudo isso poderia soar como fantasioso. Mas, não é. O contido nas declarações do deputado Márcio Fortes(sempre ele!) na Folha-SP sobre o assunto, são o prenúncio do que assistiremos no próximo pleito: "Eu sou um político. Ao "ajudar" estou enriquecendo o partido, que vai me enriquecer quando eu precisar de sua estrutura. Não é cifra. São votos. Eu gosto de dar para o partido." Depois disso, pelo menos para mim, não há mais dúvidas de que a próxima eleição não será disputada – democraticamente – voto a voto. Será – despudoramente – decidida no sistema: " dólar a dólar".