FORMIGA DOCEIRA – II

                 Fui escalado pela minha esposa para ir ao sacolão escolher e comprar alguma fruta ou legume para fazer um doce. Não ousei recusar, porque sempre enalteci os ensinamentos culinários herdados da minha mãe.               Parti direto para os cocos para verificar a possibilidade da confecção do próprio doce ou do bolo de aipim. Peguei aquela barra de ferro que fica amarrada na gôndola e bati nas unidades. Todos os exemplares produziram um som murcho. Reprovei para mim mesmo: “coco bom “dá” som seco!”.            Aprendi que as bananas têm que ser d”água e as goiabas, vermelhas, e que, além disso, têm que estar bem maduras. Mas, só havia bananas prata e goiabas brancas, ainda por cima verdes. Mamões e figos, esses sim, têm que estar imaturos. Também não serviram: estavam maduros. Não havia laranjas da terra, da qual se faz doce da polpa branca e da casca.            A esperança era achar uma abóbora vermelha. Mas, os cortes estavam amarelados. Abóbora “desmaiada” no fogo, dizia minha mãe, só faz água e não “dá ponto de doce”.            Na saída, observei para a pessoa ao meu lado a fartura de ofertas de doces industrializados perto dos caixas. A resposta: “é tudo cheio de “agrotóxico. Pode ver: não tem nem “formiga doceira” procurando açúcar em cima dos doces”.        Não ter encontrado nada que servisse para doce, certamente, me iria render um rosário de reclamações. Mas, sob a minha ótica, foi altamente gratificante.           O termo “formiga doceira” me lembrou a ida de um conhecido à casa de um parente na roça onde me contou ter encontrado em cima do fogão de lenha o velho bule, cujo bico recurvado é tapado por aquele veludo vermelho que imita a cabeça de uma galinha, com café feito no dia anterior. Pegou o copo, colocou bastante açúcar cristal no fundo, entornou o que restou do liquido preto e foi tomando grandes goles até chegar ao açúcar. Passou a mordiscar os cristais até sentir que havia encontrado o que procurava: o corpo de uma “formiga doceira” misturado aos grãos.  Em outros tempos teria mordido e engolido. Mas, era preferível ficar só na lembrança. Seu civilizado paladar de cidade grande se recusava a sentir o gosto de uma de suas mais belas e prazerosas recordações.