FORMIGA DOCEIRA

    font face=”Times New Roman” size=”1″>         Eu gostaria de saber o porque que toda vez que ouço alguma referência a insetos – qualquer que seja – não me aparecem no pensamento as imagens de uma barata, de uma pulga ou de algum mosquito. Surgem, como se eu estivesse no meio de um pesadelo, as figuras de um sapo-boi e de uma ratazana. Só que, invariavelmente, a cara do sapo-boi é substituída pelo rosto do Eurico Miranda e o focinho da ratazana é trocado pela face da Georgina de Freitas. Não consigo atinar com a associação, pois como boa parte da população, aprendi na escola que sapos são batráquios e as ratazanas mamíferos. Mas e o Eurico e a Georgina o que serão? Improváveis seres humanos, concluo que, desprovidos de classificação, desclassificados são. O parágrafo é típico de uma conversa a dois, em que os protagonistas – eu e o proprietário – sem o que dizer, deixam aos rumos da prosa descambarem para assuntos estapafúrdios. Foi o que aconteceu em uma visita a um sítio em Mauá (RJ), onde depois de uma longa visita a propriedade, sentados em frente a algumas garrafas de cerveja, acabamos, por incrível que pareça, falando, por minha iniciativa, de insetos.         Meu parceiro gostou do tema, tomou as rédeas da conversa e discorreu com ares de professor sobre as características e manias dos insetos do sítio. Falou sobre a dificuldade de perceber atualmente a presença de algum vaga-lume e lembrei que adolescente em Friburgo voltava de madrugada para casa pela Rua do Urubu (alcunha devida à intensa escuridão do trajeto) – e ficava fantasiando que, a pouca luminosidade não seria problema, já que os vaga-lumes indicariam o melhor trecho, além de iluminarem o caminho de regresso.         Lamentou o homem que, por lá, ao contrário de alguns anos atrás – aparecem raras borboletas. Assim mesmo "esmirradinhas", sem cor e sem graça. Novamente viajei no tempo até à “santa terrinha” para me imaginar construindo um daqueles puçás. Passava o dia na beirada do rio, na mesma Rua do Urubu, atrás das borboletas. Quando caía na rede uma daquelas enormes e bem coloridas, espetávamos as bichinhas num papelão, passávamos um mistura de querosene, álcool e gasolina no corpo do inseto, sob a garantia que essa era a forma de eternizá-las. Uns três dias depois da "mumificação", íamos verificar o resultado e só achávamos alguns minúsculos restos mortais das pobres coitadas.         Vibrei ao ser informado de que ainda existem as joaninhas. É o inseto mais amigo, gracioso e inofensivo que existe. Caminha rápido, mede menos da metade de um grão de arroz e possui o corpo recheado de pintas amarelas, brancas ou vermelhas. Eram colecionadas dentro de caixa de fósforos. A cada lembrança das suas presenças, fazíamos com que andassem pelas nossas mãos e braços. De repente, mudávamos de distração. E na pressa, geralmente esquecíamos de deixar uma entrada de ar nas caixas. Dias depois, surpresos, percebíamos que as joaninhas haviam desaparecido sem deixar vestígio.         Tentei tomar as rédeas da conversa ao discorrer sobre as “esperanças”. Afirmei que o sinal de que algum desejo secreto iria acontecer era dado pelo surgimento de uma “esperança” de surpresa à nossa frente. Imaginei ter contado uma novidade, mas o olhar enviesado de que fui vítima me deu a certeza de que a minha descoberta era mais velha do que andar para frente.         Insistente, tentei demonstrar que sabia alguma coisa sobre os grilos, mas levei logo um corte: “eles perderam o seu espaço!" Afirmou, com veemência, o meu conversador. E continuou: “o progresso ensurdeceu o barulho dos grilos ao entardecer. Mesmo aqui, nesse fim de mundo, nessas horas o que se houve são barulhos da música funk, das motos, dos carros e o eco das novelas. É porque eles são insistentes e continuam a cantar para ninguém ouvir. Se fosse" eu ", fechava a boca!" Foi a minha vez de ficar olhando o homem desconfiado e matutar de como seria a boca de um grilo.         Quando perguntei se havia muitas formigas por lá, ganhei uma aula grátis: aprendi que, primeiro, não existem remédios que exterminem as formigas. Combatidas, elas apenas mudam de endereço. A segunda informação é que os inseticidas servem apenas para torná-las cada vez maiores, mais trabalhadoras, mais resistentes e com ferroadas mais fortes.         Estava na hora de embora, mas o parceiro insistiu em contar, como "saideira", o que havia lhe acontecido no dia anterior, quando foi à casa de uma tia, moradora de dessas casinhas construídas solitariamente bem lá no meio da roça: encontrou em cima do fogão de lenha o velho bule de café feito no dia anterior, cujo bico recurvado é tapado por aquele veludo vermelho que imita a cabeça de uma galinha. Pegou o copo, colocou bastante açúcar cristal no fundo, entornou no recipiente o que restou do liquido preto, aquela altura gelado, apesar das varias requentadas por que passou e foi tomando grandes goles até chegar no açúcar. Foi mordendo os cristais até sentir que havia encontrado o que procurava: o corpo de formiga doceira misturado aos grãos de açúcar. Hesitou por uns instantes.  Em outros tempos teria mordido e engolido. Desistiu da intenção. Era preferível ficar só na lembrança. Hoje, seu civilizado exigente paladar,  acostumado às manias de gente de cidade grande, se recusa a sentir o gosto de uma de suas mais belas e prazerosas recordações.