IMPAGÁVEL!

            Para saber previamente as possíveis repercussões sobre o que escrevo decidi submeter a um júri familiar os meus textos. Minha esposa lê e nem precisa chegar na metade para dar o diagnóstico: "Você já escreveu coisas melhores". E dá o tiro de misericórdia: "leu a crônica da Eloísa Seixas na Revista de Domingo?Fantástica!" A filha mais velha, em fase pré-conjugal, examina a introdução, abandona a matéria em qualquer lugar e comenta: "Adorei o artigo sobre armários embutidos que saiu hoje Jornal da Família!" E a mais nova me nocauteia quando proclama antes de devolver o original sem ter lido: "Sei que você não vai concordar, mas o Cony não chega aos pés do Veríssimo! Aquela crônica sobre o ovo então… É impagável!" Impagável?         Depois de publicadas, as reações não são diferentes: elevador aqui do prédio lotado e de repente um dos passageiros me encara e diz: "Está errada a informação que saiu naquela sua matéria do BC-Rio sobre o Palácio da Justiça, de que foi o Getúlio Vargas quem criou o FGTS!". No setor, um colega, em pé, e sem me encarar, acaba de ler dessas minhas matérias e pergunta: "Tem umas coisinhas aqui… Porque você não pede a alguém para fazer a revisão ortográfica?".  Outro me diz: "Não sabia que havia crônicas suas no site do Sinal! Qualquer dia desses vou leruma…"E mais outro confessou:"De vez em quando dou uma olhadinha no início das suas crônicas… Gostei daquela do ovo… Impagável!"Sobre ovos? Eu nunca escrevi nada sobre ovos…       E porque será que essa tal crônica sobre ovos é impagável? Resolvi pagar para ver e ler a tal crônica do Verissimo no Globo.com:       "Agora essa. Descobriram que ovo, afinal, não faz mal. Durante anos, nos aterrorizaram. Ovos eram bombas de colesterol. Não eram apenas desaconselháveis, eram mortais. Você podia calcular em dias o tempo de vida perdido cada vez que comia uma gema".       Cardíacos deviam desviar o olhar se um ovo fosse servido num prato vizinho: ver ovo fazia mal. E agora estão dizendo que foi tudo um engano, o ovo é inofensivo. O ovo é incapaz de matar uma mosca. A próxima notícia será que bacon limpa as artérias.       Sei não, mas me devem algum tipo de indenização. Não se renuncia a pouca coisa quando se renuncia ao ovo frito. Dizem que a única coisa melhor do que ovo frito é sexo. A comparação é difícil. Não existe nada no sexo comparável a uma gema deixada intacta em cima do arroz depois que a clara foi comida, esperando o momento de prazer supremo quando o garfo romperá a fina membrana que a separa do êxtase e ela se desmanchará, sim, se desmanchará, e o líquido quente e viscoso correrá e se espalhará pelo arroz como as gazelas douradas entre os lírios de Gileade nos cantares de Salomão, sim, e você levará o arroz á boca e o saboreará até o último grão molhado, sim, e depois ainda limpará o prato com pão. Ou existe e eu é que tenho andado na turma errada. O fato é que quero ser ressarcido de todos os ovos fritos que não comi nestes anos de medo inútil. E os ovos mexidos, e os ovos quentes, e as omeletes babadas, e os toucinhos do céu, e, meu Deus, os fios de ovos. Os fios de ovos que não comi para não morrer dariam várias voltas no globo. Quem os trará de volta? E pensar que cheguei a experimentar ovo artificial, uma pálida paródia de ovo que, esta sim, deve ter me roubado algumas horas de vida a cada garfada infeliz.       Ovo frito na manteiga! O rendado marrom das bordas tostadas da clara, o amarelo provençal da gema… Eu sei, eu sei. Manteiga ainda não foi liberada. Mas é só uma questão de tempo."".       Tenho que concordar que o texto realmente é impagável! Mas não é gratuito! Custou R$6, 00 a utilização do arquivo de "O GLOBO" para poder ser lido.         Pior é que fiquei certo de que impagável mesmo é a minhainveja de não tê-lo escrito