O QUE FOI SEM NUNCA TER SIDO

            Essa mórbida mania que possuo de ler o obituário dos jornais, como não poderia deixar de ser de vez em quando me traz notícias desagradáveis.  Há uns meses, soube que o Rosa Branca, de quem fui fã incondicional, morreu. Para quem não sabe, Rosa Branca foi jogador de basquete de destaque da seleção brasileira.             O estranho dessa idolatria é que nunca vi o Rosa Branca jogar, e, durante bom tempo, sequer sabia como era sua fisionomia. Passei a ouvir falar dele nos anos de 1962 e 1963, quando o Brasil se sagrou bicampeão mundial de basquete com um time em que os grandes nomes eram Amaury Passos e Wlamir Marques. Porém, me encantei com o apelido Rosa Branca. Nos meus sonhos ele nunca errou um arremesso. Imaginava-o louro, alto e forte. Através de uma foto verifiquei que realmente ele possuía o tipo físico, só que era negro. Até hoje não sei a origem do seu apelido e só há pouco tempo fui saber que se chamava Carmo de Souza.              O mesmo fato aconteceu em relação ao futebolista Ademir Menezes, que também nunca vi jogar. Mas, de tanto ouvir meu pai falar dos seus gols passei a admirá-lo. Como achava que jogava no América, passei a ser americano. Um dia o vi com a camisa do Vasco numa revista, onde havia fotos e a ilustração de muitos dos seus gols. “Vi e revi” todos eles centenas de vezes. Nessa época virei a casaca  e me tornei vascaíno.            Nas rodas de conversa quando cheguei aqui no Banco, percebi que Cidadão Kane era o filme preferido pela “intelectualidade” baceniana.  Para me enturmar, adotei-o também como filme predileto. E mesmo sem tê-lo assistido (só vi quando saiu em vídeo), corroborava as opiniões sobre a sua excelência. O filme conta como um repórter reconstitui a trajetória do empresário da imprensa Charles Foster Kane, buscando decifrar o significado de sua última palavra no leito de morte: "rosebud". A morte de Kane comoveu a nação e descobrir o porquê daquela palavra se tornou uma obsessão para o jornalista, que acreditava poder encontrar nela a chave do significado daquela vida atribulada.             Embora o cinema seja um dos meus grandes prazeres, a falta de embasamento cinematográfico me dá a impressão de que já assisti a filmes muito melhores.                E nessa de admirar sem nunca ter visto, a “saideira” fica por conta do livrou “Viva o povo Brasileiro” do João Ubaldo Ribeiro. Ainda, na procura do reconhecimento intelectual, durante uns dois meses, só chegava e saía aqui do Banco com o livro do baiano debaixo do braço, na época, um best-seller. Até que um dia, antes de entrar no setor, fui até ao banheiro e acomodei o livro em cima da bancada da pia. Chegou uma pessoa que me disse: “Admiro você por conseguir ler esse livro. Tentei várias vezes e não consigo nem terminar a primeira página!”            Respirei fundo, ganhei coragem e confessei: “Nem eu!”.   

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