OUTONO

              Registrei três manifestações sobre o final deste verão: a primeira num telejornal regional, quando a apresentadora, com cara de triste, informou ter chegado ao fim – lamentavelmente – a estação preferida dos cariocas. Todavia, as entrevistas que se sucederam conotaram mais alegria do que tristeza. A segunda, da colunista da Folha-SP e da BandNews, a paulistana Bárbara Gancia que, no seu blog, se disse em pânico com a provável chegada em julho do frio de São Paulo, e confessou sempre pensar mudar para o Rio nessa época.             Para falar da terceira manifestação, a do cronista Artur Xexéo, na Revista de Domingo de O Globo de 22/3, até mudei de parágrafo, “pois bate exatamente com o que sinto”: ele confessou ter comemorado a chegada do outono no dia 20 de março, interessado que estava na queda da temperatura. No restante do texto, ocupou-se em fazer registros favoráveis à estação, citando inclusive Carlos Drumond e Mario Quintana.            Eu não só comemorei como registrei num calendário, diariamente, os dias que faltavam para o término do verão, cuja intensidade de calor no Rio, arrisca-se a deixar de ser uma simples estação, para se transformar em sintoma de irritação, e, em seguida, de violência. Todavia, não chego ao extremo de um leitor do Xexéo que, ao se solidarizar com o colunista em e-mail ao jornal dias depois, escreveu ter “finalmente encontrado alguém que, ao ver na TV a menina do tempo dizendo “tempo bom” – para o que sabemos ser um dia de sol causticante, avidez por ar-condicionado e suores em bicas – talvez tenha também vontade de lhe dar um soco”.           Desde que morava em Friburgo não gosto do verão. Naqueles tempos eu suava muito (atualmente não mais acontece) e tentava esconder o suor que brotava nas axilas, espremendo os braços junto ao corpo. O resultado era que suava mais ainda e molhava quase inteiramente a camisa. A partir daí, fiquei com a síndrome da antecipação do sofrimento da Bárbara Gancia lá de cima: não vejo com bons olhos a primavera, porque antecede o verão. E não gosto do inverno, porque antecede a primavera…              Semana passada, ao deparar com a rua pela manhã, o asfalto estava molhado, a temperatura baixa, havia flores caídas nas calçadas, assim como folhas das árvores, ainda que não amareladas. Um clima europeu tomou conta do ar. No regresso, ao cair da tarde, a luz do sol que se despedia do dia estava simplesmente inigualável. Indescritível. Em casa comentei com a minha esposa sobre a beleza do outono do Rio de Janeiro. Ela discordou retrucando que a estação tem cara de triste, deprimida.             Nesse momento, lembrei de uma passagem da crônica do Artur Xexéo em que o colunista advertiu que não foi por acaso que Carlos Drumond de Andrade afirmou que o outono não é uma estação da natureza, mas uma estação da alma. Sombrio diagnóstico para a melancolia que toma conta do meu estado de espírito em boa parte do tempo.

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