PAULO ROBERTO DE CASTRO

    Caminhando contra o clamor público reinante nos anos 80, as portas e janelas do Banco Central custaram a deixar entrar os ventos da “abertura” política admitida e iniciada no governo Ernesto Geisel e solidificada na era João Figueiredo. Nessa época, na RECAM-VII/RJ, nascia o melhor dirigente sindical brasileiro conhecido. Empossado como Técnico Básico (o analista de hoje) começou a “carreira” comprando a briga da Categoria Isolada (parte do funcionalismo formado por datilógrafos e conferentes de numerários) pelo acesso à carreira. Paralelamente, editava e distribuía um informativo clandestino denominado “O OVO”, com matérias relativas ao funcionalismo. A seguir, foi um dos fundadores da UNTBC (União Nacional dos Trabalhadores do BC), Depois, encampou a luta pela independência da ASBAC através do movimento “Democracia e Independência”. Tais atitudes, todas vitoriosas, desaguaram na AFBC (Associação dos Funcionários do Banco Central). O SINAL é filho natural e legítimo desse único pai.Premido entre os anseios externos e o clamor dos funcionários não restou alternativa ao Banco a não ser permitir a participação do funcionalismo – através de representantes – em algumas das discussões internas. A toque de caixa foi marcada a eleição para representantes. Seriam dois os eleitos (titular e suplente), escolhidos diretamente pelos funcionários de cada divisão. Situacionista, o banco tinha candidaturas articuladas e difíceis de serem derrotadas. A AFBC só restava a luta contra a exigüidade de tempo. Foi quando aconteceu a primeira demonstração pública da eficiência do “líder”. Plantou-se diante de um telefone e, com decisão, precisão e rapidez incrível, montou chapas de oposição até em divisões dominadas pelo ranço de anos de ditadura militar. Os candidatos da AFBC elegeram-se em 80% das divisões. À primeira reunião entre os eleitos para o Conselho de Representantes e a cúpula do BC no Rio aconteceu no 21° andar do “730”. A expressão de surpresa estampada no rosto dos representantes oficiais ao entrarem na sala e verificarem que sentados nas cadeiras dispostas em semicírculo encontrava-se a maioria daqueles funcionários que, de uma forma ou de outra, destacavam-se por sua combatividade política/sindical não permite descrições. A impressão (falsa) foi de que eles ainda desconheciam os resultados dos pleitos. Num canto, o “líder” saboreava um dos seus inúmeros cigarros. Aquele tinha o sabor de um novo tempo.Assembléia Nacional dos Delegados em Brasília (AND). Além de presidente da AFBC o “líder” era responsável por toda organização do evento. Cada tema, era discutido em salas separadas pelos membros das delegações mais afeitos aos diversos assuntos. Nas questões econômicas ficaram juntas todas “as cobras criadas” de cada regional. Acumulando as funções de debatedor, presidente e organizador do encontro o “líder” não conseguia parar na sala. Percebendo a situação, um adversário político que estava com a palavra perguntou-lhe traiçoeiramente sobre determinado tema, sabendo que o “líder” naquele momento não teria condições de responder. Mas um “líder” não perde a passada. Pegou o microfone e encarando o sujeito falou por uns dez minutos. Ao contrário do habitual, caprichou em cada palavra pronunciada. O silêncio do inquisidor e de toda platéia foi o velado sinal da total aprovação da resposta.Tarde da noite num jantar, confessei-lhe sobre o episódio: – “Não entendi nada da sua resposta”.E ele, após uma baforada: – Nem era para entender. E nem ele. Eu não disse nada. Entendeu… ?Reunião sobre temas econômicos no 22 ° andar com o presidente do BC à época. Aproveitando-se do atraso do “líder”, o Presidente conduz a reunião ao seu “bel prazer”.Um minuto depois de iniciada a discussão sobre o índice de reajuste chega o “líder” que se senta um pouco afastado. O presidente tenta disfarçar a insatisfação. A perda da segurança inicial é nítida. Retoma a palavra e afirma que não existe nada que embase ou justifique o percentual solicitado. O “líder” retruca afirmando possuir um comprovante oficial onde constaria justificativa para o pedido. O presidente pede para ver. O “líder” estica o braço em direção ao Presidente e quando este faz menção de pegar o documento, recolhe o papel e diz que antes quer alertar para um determinado ponto. A cena se repete mais umas três vezes. O Presidente fica vermelho de raiva. Está preste a perder a calma. Confabula com assessores. Irado, diz que precisa de mais dados. O líder estende-lhe outro papel, saído ninguém sabe da onde. O presidente não ousa esticar novamente o braço. Olha para o vazio. Olha em volta. Não encontra respostas. Derrotado, concorda.O líder acende o novo cigarro. Os “documentos” seriam folhas em branco? Ninguém sabe.Outubro de 2003: elevador tomado por “sauros”. No 14° entra um mensageiro de nome Anderson. Imediatamente do fundo veio a pergunta que não queria calar: – Com quem se parece este menino?- Paulo Roberto, quando jovem! A unanimidade ficou exposta através de um sorriso ou da voz alta.E vieram as definições: exemplo de honestidade, sagacidade, integridade, inteligência, de visão, de coerência, de personalidade, de caráter, de altruísmo. De paixão? Claro! E também de fascinação!Sem defeitos? Nunca! Tem uma porrada deles! O Anderson, calça jeans desbotada, camiseta, cabelos negros compridos e brinco na orelha é o primeiro a descer no térreo. Por uns segundos ninguém se mexe. Todas observam suas rápidas passadas em direção à rua. Olham para os pés calçados de tênis e enxergam um par de sandálias Havaianas negras.Ninguém disse, mas era nítido de que em todos bateu a mesma saudade: do tempo em que havia a possibilidade de sermos conduzidos por aquele “líder”. Certos de que, se a estrada estivesse minada, ele nos tomaria pelas mãos, desarmaria as armadilhas e nos guiaria em procissão através do caminho das pedras.Paulo Roberto de Castro é tão especial quanto exceções às regras. Assim sendo, insubstituível.

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