VIDA SOBRE VIDA

    Retornei ao Rio de Janeiro no sábado, dia 04/outubro. Manhã de arrumações e conferências para não esquecer de nada importante. Depois do almoço a viagem, tranqüila, visto já estar acostumado com o pedágio caro, com os irresponsáveis que nos cortam pela direita, com a sinalização meio maluca de nossas estradas, mesmo privatizadas, e chega que não vou estragar meu bom humor. Em Ipanema o serviço inverso: desarrumar para arrumar de novo tudo que trouxemos. Esta é a nossa rotina há muito tempo, mas vale a pena. Lembro-me que vou preparar um Álbum de Fotos para o meu site pessoal. Além das que já estão prontas saí à cata de outras. Mergulhei num passado bem longínquo, viajei no tempo junto com a saudade em milhares de fotos, coloridas, preto e branco, amareladas etc. Ligar o computador, nem pensar, só o fiz 48 horas depois de aqui ter chegado. E foi para a prioridade de escrever este texto. No dia seguinte o sol convidava à praia, mas eu tinha muito que fazer. Sem contar que meu apartamento estava arrebentado na cozinha, no banheiro de serviço e área. Buracos vários, ladrilhos esquartejados. Ocorre que meu vizinho de cima decidiu fazer obra (e estava precisando mesmo) e então a idade do prédio, aliada ao desleixo da falta de uma manutenção, explodiu pra todo lado. Canos arrebentando, água esguichando, e eu… reclamar para quê? Tive mesmo foi que colaborar com eles para que tudo ficasse resolvido em tempo hábil e minha pressão se mantivesse, no mínimo, ao nível dos jatos de água. Deu certo. Isto sem falar em dois telefonemas, no mesmo dia, que me anunciaram: um de meus irmãos, em Belém, fora internado às pressas na UTI de um Hospital. Infecção meio generalizada com outras complicações pelo fumo e pelo álcool. Procurei não me abater, trabalhando.  Rezei. Ele tinha 62 anos. Na manhã da segunda-feira seguinte já me comunicavam o seu falecimento. Eu já terminara de escrever este texto. Decidi mantê-lo até em homenagem ao mano Zeca, excelente e talentoso radialista, além de ex funcionário do BB, bom humor refinado, uma personalidade muito forte e que amava o trabalho que fazia. Deus o tenha. No outro telefonema: minha filha está a fazer vários exames que visam a pesquisar e esclarecer o que a gente espera sempre que seja benigno, e tenho fé em Deus que desta vez o será. Ela é linda (não sou pai coruja, não…), tem uma filha maravilhosa, está na casa dos 40, cheia de vida e de vontade de viver. Reativei minha esperança  e minhas cobranças aos santos de minha devoção. Estou na luta outra vez. Vai dar certo. Achei que seria ótimo para um relaxamento aquela habitual caminhada longa, à tarde, na Vieira Souto. Convoquei Marlene, minha secretária particular, assistente social, assessora de assuntos domésticos, e conselheira. Às 16:20 hs. já estávamos caminhando em ritmo largo na avenida. O tempo estava ótimo.  A praia, como de hábito, fervilhava de banhistas, os quiosques, lotados, vendiam até o que não tinham, o mar trazia-me lembranças de Cabo Frio. Marlene acelerava e, ao perceber que meus passos não seguiam, mas perseguiam os dela, pedi-lhe: “Menos, amiga, menos.” Explico: minha máquina, com vinte anos a mais de quilômetros rodados que a dela, não deve ser exigida além de certos limites. Pode bater o pino. E eu quero é distância de “oficinas”, entendem? Na altura do Posto 9, o mesmo de sempre. Já fiz severas críticas, que nem todos entenderam, sobre ciclistas, patinadores e adeptos dos “skates” que invadem a área criada para o lazer de quem quer caminhar, sozinho ou com amigos e/ou familiares. Só que agora os “atletas” dos “skates” inovaram: passaram a colocar algumas rampas em pleno asfalto da faixa de rolamento a nós destinada. Quer dizer, eles tomam distância, aceleram bastante, sobem ligeiro nas rampas e voam… bom, do outro lado sempre vai o jovem para um lado e o “skate” para outro. Deste outro lado, geralmente estão a passar, despreocupadamente, pernas de adultos e de crianças ameaçadas pelas pesadas pranchas. Há quem diga que chato é quem reclama disso. Talvez, mas que tal colocar sua perninha, ou a de seu filho, por ali, nos domingos à tarde, hein??!! Do jeito que a coisa vai, logo teremos provas de automobilismo e motociclismo nas áreas antes destinadas ao lazer de quem quer apenas um espaço protegido para caminhar ou correr, aos domingos. Talvez eu esteja mesmo errado, afinal educação é algo que não está ao alcance de todos e alguns, que podem, se recusam a recebê-la!   Ultrapassamos esta zona perigosa e seguimos em frente. O Arpoador era aquela festa de sempre. A vista do Morro Dois Irmãos, com o sol já brincando de esconde-esconde, é das coisas mais lindas desta cidade que, apesar de tudo, das balas perdidas, do dinheiro público enviado para o exterior irregularmente, da impunidade, da corrupção em todos os níveis, dos “habeas-corpus” que legalmente e oportunamente sempre encontram os que podem mais que os outros, mesmo eles fazendo o que não devem, ainda continua Maravilhosa. Na volta do Arpoador ouvimos um som ao longe. Era um Trio Elétrico que animava ainda mais a turma com uma música bem ritmada e ao som de metais. Desfilava lentamente trazendo uma longa “cauda” de animados passistas já ensaiando para o Carnaval. Mais alguns passos e lá estava um desses escultores da areia. Criara um imenso e lindo castelo. Alguns paravam para admirar, outros para fotografar. Ele merecia.  Voltávamos de um certo ponto do Leblon e sentimos que era hora de parar. Completamos 1 hora e 25 minutos de caminhada, mais os 15 minutos de ida e volta para casa. Se eu tivesse que escrever este texto  com os pés, com certeza não conseguiria. Minhas pernas estavam mesmo pesadas. Preciso voltar ao ritmo de antes. Até a próxima caminhada.