POLÊMICO, MAS VERDADEIRO E LEAL

    Os que me conhecem há muito tempo sabem que tenho o hábito de escrever algo sobre algum amigo, ou pessoa que admiro, que partiu desta vida. Quanto à amizade pode ter durado pouco ou longo tempo, não importa. A vida nos conduz a caminhos diferentes na maioria das vezes.Hoje me refiro a Clodovil Hernandez. Sei que muitos não gostavam dele, muitos até o odiavam, mas garanto que a maioria dessas pessoas jamais o conheceu de perto, jamais teve oportunidade sequer de falar com ele, mas o odiavam. Porque infelizmente muitas pessoas são assim mesmo. A maior parte delas é movida por uma antipatia gratuita, sem razão aparente, sem justificativa plausível (e não só ao Clodovil), ou por um preconceito odiento. É o ser humano que não se explica.Foi em 1986 que conheci Clodovil. Eu havia me aposentado e resolvi juntar diversas das minhas Fotografias Artesanais e, incentivado por minha então esposa, fomos até à TV Manchete. Entreguei as fotos e um bilhete à produção do programa dele, tentando ver se conseguia uma entrevista. Não estava muito certo de que o conseguiria, afinal eram só fotografias, mas a minha surpresa maior transformou-se em alegria quando recebi um telefonema, dois dias depois, de uma jovem da produção. Eu estava sendo convidado a gravar uma entrevista com ele. Foi-me informado que Clodovil gostara muito dos meus trabalhos e pretendia me ouvir. Mais dois dias e lá estávamos, eu e minha esposa, aguardando o momento daquilo que eu pretendera, como uma divulgação maior do que eu fazia. Mesmo assim eu estava meio nervoso, apesar de minha experiência com microfones no passado.Durante a entrevista e nos intervalos ele foi sempre muito educado, muito atencioso, tanto para comigo como para Zezé. Deixou-me à vontade para falar sobre o meu processo de criação das fotos, fazendo perguntas simples sem nunca pretender esnobar ou me dificultar nas respostas. Elogiou e muito cada fotografia que era colocada num cavalete, comparando algumas com pintura.Aquilo funcionou como uma promoção e tanto que acabou resultando para mim em exposições, por exemplo, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, no Salão de Arte do Planetário, na AABB – Lagoa, na tradicional Charitas, em Cabo Frio, no Salão de Verão, também em Cabo Frio, no Salão de Exposições da Prefeitura de Teresópolis, na Galeria de Arte da artista plástica Lenita Holtz, em Teresópolis, na Biblioteca Municipal de Cabo Frio (primeira exposição ali realizada, e o foi com fotos e poesias minhas), no transatlântico Eugênio C, quando em viagem para a Europa, e na Associação Portuguesa de Arte Fotográfica, em Lisboa, entre outras.Quando gravamos a entrevista eu sabia que fazia pouco tempo a mãe que ele tanto amava havia falecido. Dei-lhe de presente um livro, “VIAGEM DE UMA ALMA”, de autor inglês e no qual é contada a história verídica de um piloto da RAF abatido durante a II Guerra Mundial. Eu sabia que Clodovil era espírita e o livro traz todo um relato envolvendo o piloto morto e seu irmão mais novo. Pretendia apenas mostrar meu agradecimento, mas aquilo funcionou de uma forma que eu jamais esperava ocorresse. Explicarei a seguir.Nos programas seguintes, Clodovil, sempre ao final, abria um livro que mantinha sobre sua mesa e lia algum trecho que tinha tudo a ver com algo que ele comentara durante cada programa. Ficamos felizes porque ele não só gostara do presente como estava a lhe servir, a lhe ser útil. Mais, ele nunca esquecia de se referir a quem lhe dera aquele livro, e me citava nominalmente, acreditem. Eu não era ninguém para uma pessoa famosa como ele e por isso demos muito valor ao que fazia. E há quem diga que ele era cruel, pessoa má, egoísta, etc e tal. Barbaridade.Um dia telefonamos para o Hotel onde se hospedava e lhe agradecemos a atenção, a lembrança, e ele disse que a leitura do livro fora muito útil a ele. Nos atendeu, amigos e amigas, sem frescuras, sem arrogância, com a educação que reconhecemos era uma de suas marcas, junto, claro, com uma personalidade muito marcante e temperamento, se para alguns difícil, na verdade o que ele não conseguia era engolir desaforos ou conviver com mediocridades.Ainda falamos mais uma vez com ele e depois a TV Manchete acabou e com ela se foi o programa dele. Lena também gostava muito da franqueza com que ele dizia as coisas pois não era daqueles que camuflam, que fingem gostar, que usam da bajulação com exagero, tipo de pessoa que muitos apreciam porque não gostam de ouvir verdades ditas de pronto, na cara, preferem mesmo ser iludidos.Hoje vi algumas mensagens tão grosseiras, mal educadas, postadas no espaço do Terra e dirigidas ao Clodovil. Nenhum respeito, mas muito preconceito que sequer se esconde diante de um cadáver, porque cara a cara dificilmente lhe diriam muito do que li ali. É a covardia que se esconde nas palavras quando o destinatário já nem se pode mais defender. Gente baixa, que passa muito longe da inteligência, da cultura geral de uma pessoa como ele, além do imenso talento como estilista.De lá pincei apenas o que disse a apresentadora Sônia Abrão: "Foi um homem brilhante, inteligente e sensível. Recebeu de Deus dois dons: o do desenho e o da palavra, pois foi um grande comunicador. Personagem polêmico, mas não vamos esquecê-lo". No Congresso não raras vezes puxou a orelha de seus pares que, em desrespeito total, como é hábito acontecer, conversavam e riam em voz alta enquanto ele tentava se pronunciar. Eles não gostam disso, afinal o que prevalece entre nossos políticos é aquela espécie de “irmandade”, aquele corporativismo de que ele jamais participou. Basta ver suas sessões através da televisão, ao vivo.Incomodou muito aos políticos de Brasília também o fato dele ter mudado completamente a decoração do seu Gabinete logo que tomou posse. Por que se incomodaram? Ora, porque Clodovil (isto é público e notório) pagou do seu bolso mais de 200 mil reais pelo serviço. Consideraram um “mau exemplo”. Claro.Teve projetos muitos bons, elogiados por diversas pessoas, mas que nunca foram discutidos. Um deles jamais iria ou irá ser, pois justificava uma redução do número de políticos no Congresso, o que muitos de nós pedimos há muito tempo mas sabemos que jamais será feito, quando muito o aumentam. Igualmente na área social ele deixou outros bons projetos. Isso quase ninguém divulga.No episódio em que acabou se referindo a muitas mulheres que não se dão valor, fato que é mais do que verdadeiro hoje em dia, lamentavelmente, ele fazia suas colocações sem agredir a ninguém e sem generalizar, quando aquela deputada do PT se encheu de razão e passou, ela sim a agredi-lo verbalmente. Valeu-se de sua maior experiência e tempo de Casa para até o ameaçar com processo. Aquilo não deu em nada, mas simplesmente o silenciaram na mídia, lembram?O fato me lembrou o que se conta teria acontecido na Câmara dos Comuns, em Londres, anos 30, quando o Premier Winston Churchil teria chamado uma parlamentar do PT de lá de feia no calor de um debate. Esta retrucou chamando-o de bêbado. Churchil teria encerrado o debate afirmando:”Eu posso até estar eventualmente alcoolizado, mas de manhã estarei, com certeza, sóbrio, enquanto que a senhora é feia agora e amanhã de manhã continuará feia.”Isto é contado sempre com humor e sem ninguém dizer que Churchil desrespeitou a parlamentar do PT londrino, mas no caso de cá… bom…  por aqui eles andam a se considerar donos de tudo que é verdade, e ai de quem os conteste!!Agora de manhã, na CBN, no programa “Liberdade de Expressão”, me surpreendi tanto com o jornalista Xexéu como o excelente jornalista da antiga, o Carlos Heitor Cony. Ambos reconheceram o talento de Clodovil e Cony foi mais longe, pois falou de sua cultura geral que a ele certa vez surpreendeu quando foi lhe consultar sobre a história de D. Beja. Apenas o apresentador, Heródoto Barbero, fez rápidas críticas a Clodovil, as de sempre, cansativas e surradas.Não fugiria à responsabilidade de redigir este texto, dizer o que eu sei, e desejar a Clodovil que descanse em paz. Mas nosso país perdeu um grande talento e alguém que poderia dar muito de si na política, mesmo não tendo o ranço necessário para se manter entre seus pares, acostumados à eterna bajulação do Vossa Excelência.Escrevi e disse.