QUESTÃO DE HONRA!

            Na adolescência, morava com a família em uma pequena rua em Friburgo, em uma das casas de uma fileira de quatro, exatamente iguais, separadas apenas por uma mureta de 1,5m de altura. À época, nossa vida, em pouco tempo, devido às oscilações do meu pai entre o emprego e o desemprego, ia da fartura até a escassez.         Como eu e minha irmã estudávamos em tempo integral, nas fases de insolvência, a minha mãe era quem sustentava a casa realizando vários serviços para fora. Entretanto, fazia questão de só receber unicamente no final de cada mês. Um dia, depois de recolher os pagamentos, minha mãe resolveu entrar no seu domicílio pelo corredor lateral em vez da porta da frente. No meio do caminho, lembrou-se de alguma coisa que não fizera e – ante a quase inexistência naqueles tempos, de atos criminosos na cidade – apoiou a bolsa com o dinheiro na mureta que servia de limite entre as residências e retornou à rua, para resolver a pendência. Na saída, viu entrando para a casa vizinha pelo corredor contíguo, um senhor de nossas relações. Resolvido o assunto lá fora, nova entrada pelo corredor e aí, é quase aquilo que você está imaginando: a bolsa estava lá intacta, mas, o dinheiro não. A conseqüência foram dois meses de absoluta dureza e privações em nossa casa, sempre com a minha mãe repetindo: – Foi ele! Tenho certeza! Foi ele! .         Contudo, “o mundo gira e a Lusitana roda (genial slogan publicitário de uma antiga companhia de mudanças)” e foi por aí que uns 25 anos se passaram. Estava a minha irmã na sala dessa mesma casa na companhia do seu filho, quando a campainha tocou e surgiu à porta aquele mesmo homem do 3º parágrafo – o larápio, segundo minha mãe – mais velho todo esse tempo. Surpresos, convidaram-no a entrar e sentar. Acomodado, entabulou inicialmente conversa com o meu sobrinho e, após contar umas abobrinhas, chegou onde queria, dirigindo-se a minha irmã:- "O motivo dessa visita é que carrego na consciência uma culpa que está me pesando muito. Há muitos anos atrás EU roubei um dinheiro da sua mãe. E agora, como estou próximo da morte, não vejo a hora de ressarci-los dos prejuízos e transtornos que causei. Aprendi a ler a Bíblia sob a doutrina das Testemunhas de Geová. Mas, só vou ter condições de dividir com o próximo o que aprendi, quando expurgar os meus pecados. Para mim, é uma questão de honra!”.   Professora de matemática, minha irmã, ao tempo que fazia as contas, filosofava mentalmente: a quantia roubada na época equivaleria a uns dois salários mínimos que, corrigidos, daria um bom dinheiro hoje. Entretanto, naquele dia, se o sujeito oferecesse mil reais ela aceitaria! Pelo menos o homem morreria em paz!O “arrependido” continuava com a ladainha: – "Orei desesperadamente esse tempo todo pedindo a Jesus que me iluminasse! Hoje uma luz divina mostrou a forma de limpar minha consciência: comprar e dar para vocês uma bíblia da nossa religião, coisa que nunca fiz para ninguém. E tem mais: como gostei muito do seu filho, daqui uns dias vou trazer uma para ele também… Para mim, é uma questão de honra!”. Depois de ouvir o relato calado, porém, irritado, fiz várias perguntas seguidas à minha irmã:        –  E ele?Continua rico? E aí? Ele trouxe a bíblia do seu filho? Sabe onde mora?- “Tá” milionário, mas mora no mesmo lugar! E nunca mais deu as caras…”.- Então vamos até a casa dele agora. Assim que ele nos receber, devolvemos-lhe a bíblia, viramos-lhe as costas e saímos. Para nós, manter a consciência desse sujeito pesando uma tonelada é que tem que ser UMA QUESTÃO DE HONRA!

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