RETRATO NA PAREDE

    Em visita a uma parenta não pude deixar de notar, bem no centro da sala da residência, uma novidade: um enorme retrato dela. Depois de jogar bastante conversa fora, perguntei a razão da auto-homenagem. A resposta foi cheia de ironia: “estou – antecipadamente – garantindo meu futuro, ou seja, me tornando apenas um retrato na parede”.Freqüentei o casarão de uma enorme e tradicional família em que, aos domingos, toda a prole se reunia para almoçar. Antes da comilança, nos bastidores, ocorriam ações que não poderiam fazer parte de nenhum manual sobre ética e lealdade e com desdobramentos que poderiam fazer parte do enredo de um filme: mistérios, segredos, negociatas, intrigas e traições. Contudo, durante o almoço, na enorme de sala de estar, era respeitado, solenemente, um armistício que impunha um clima de paz e harmonia, como exigia a severa imagem do patriarca, reproduzida na pintura a óleo pendurada na parede. Terminado o almoço, fora da sala, era hora de concretizar o que fora urdido antes da refeição.  Logo depois da eleição de 1982 para governador do Estado do Rio, houve estresse em relação ao Brizola porque ele estava demorando muito para anunciar todo o seu secretariado. Para justificar a demora, o Leonel alegou que estava testando quem ficaria ao seu lado sob qualquer condição. Citou, como exemplo, uma história ocorrida com um seguidor de Getúlio Vargas “até a morte” e “sem interesse em cargo algum”, que irritado com a demora do gaúcho em nomeá-lo, perdeu a paciência e esvaziou o tambor do seu revólver no retrato de Getúlio, pendurado em lugar de destaque na sala principal da casa.  Numa época em que eu não havia escolhido ainda, qual seria a melhor forma de fim do mundo, se em água ou em fogo, andei cometendo uns pecados veniais que só o pagamento de uma série de penitências no purgatório me livraria de arder no fogo do inferno e me levaria a ter uma vida mansa no reino dos céus. Um dia cheguei em casa e notei que na parede da sala estava pendurada uma imagem de Jesus Cristo que, para onde eu ia, me seguia com o olhar. Fiquei assustado com aquela “perseguição” e tive a certeza de que nem a remissão dos pecados me salvaria. Só me acalmei quando minha mãe revelou que aquele tipo de imagem possui um jogo de espelhos que faz com que Jesus nos siga com o olhar para qualquer direção.    Minha esposa fez 50 anos e mandei reproduzir em “tamanho família” um retrato do seu rosto para compor a mesa de aniversário. Meu “faz tudo”, que a tem “nas alturas”, pediu se podia levar o quadro para casa após a festa. Disse, com sincera ingenuidade, que iria pendurá-lo em sua sala, com a mesma alegação da minha parente: “se ela morrer amanhã, o quadro já tá lá…” . Sabendo que faria aniversário, veio perguntar se mandei fazer um retrato meu, “bem grande”. Para afastar uma possível de suas mórbidas idéias, resolvi, então, revelar para ele meu segredo de “vida eterna”: “Depois que completei 50 anos, passei a contar minha idade em ordem decrescente. Este ano completei 47 anos. Ano que vem vou para 46…”.