SEM PROSOPOPÉIA

    Enquanto nós, povo, escrevendo ou conversando, falamos muito sobre a violência reinante no Brasil, especialmente no Estado do Rio de Janeiro, enquanto nós somos violentados em nosso direito à liberdade de ir e vir, sim senhor, pois ser assaltado todo dia, ser assassinado todo dia, é, em verdade, a ditadura do lado podre da sociedade a se impor pela força bruta, nossas autoridades apenas discursam, fazem promessas e ainda nos obrigam a votar neles para termos que passar permanentemente pelo constrangimento físico e/ou moral, além do psicológico, do uso da força, da coação.E ninguém diga que “eles foram apanhados de surpresa” com o crescimento brutal deste estado de coisas, pois a violência que hoje passeia impune por nossas ruas, sem distinção de bairro, ou invade nossos lares à luz do dia e ainda fogem a pé ou de bicicleta, já vinha dando sinais de incremento há cerca de uns 10 anos. E nossas autoridades, que nos cobram altos impostos, se omitiram, ou pouco fizeram. Os homens, ou mulheres, no poder, já mudaram, mas a incompetência ou desinteresse continuam a ser os mesmos, infelizmente. Enquanto isso vamos escrevendo poesias, falando de feiras dos livros, contando historinhas engraçadas, como também gosto de fazer, achando que nunca baterão à nossa porta. Afinal precisamos viver e não dá para nos fixarmos na violência apenas, ou teremos problema com nossa pressão. Mas chega um momento em que é preciso tirar a venda dos olhos, abrir a boca, digitar com equilíbrio, sem perder a ternura, sim, porém bradando contra tudo isso, sem medo de ser feliz. Você já ficou com uma arma encostada em sua cabeça dentro do seu carro? Pois eu já fiquei, há uns anos atrás. Entendo o que é sair com vida de uma situação dessas, amigos. E os pesadelos que se seguem? E o medo que quer lhe dominar enquanto você reluta em aceitá-lo, pois assim a vida perde o sentido maior? Tenho um amigo da antiga guarda que certa manhã acordou sob a mira de armas que não estavam ali para conversar. Outros já viveram essa mesma situação aterradora. Seqüestros martirizam pessoas, humilham cidadãos, infernizam suas famílias. Gangs invadem edifícios residenciais à luz do dia, roubam, coagem e acabam conseguindo fugir. Eles devem ter muita “sorte”. Raramente são apanhados. Você já acordou assustado com o seu telefone tocando forte de madrugada? Você o atendeu, certamente. Mesmo sendo uma ligação a cobrar você fica angustiado, afinal tem parentes morando em outro Estado, filhos que não estão com você, enfim, várias hipóteses. Aí você ouve uma voz que grita lhe pedindo ajuda, implorando socorro.  A impressão é que estão a bater nele, ou nela, e o pânico que envolve você faz com que imagine ser alguém de sua família. Na verdade não é, mas até você ter certeza a angústia pode já ter aumentado sua pressão, o desespero não o deixa raciocinar direito porque outra voz grita seguidamente fazendo-lhe exigências. Acordando sob esta pressão terrível você fica muito fragilizado. É a vantagem deles. Só depois de algum tempo lhe ocorre tentar contato com seu parente para confirmar ou desmentir a história que lhe contaram ao telefone. Uma vez conseguida a certeza de que tudo não passa de um trote de profundo mau gosto, mas com a intenção criminosa de obter dinheiro fácil, resta-lhe desligar o telefone e fim. Saiba que este fato vem se repetindo assustadoramente não só no município do Rio, como em S. Paulo e cidades do interior de ambos os Estados. Eu fui vítima desta tentativa de extorsão e muitos conhecidos também. Garanto-lhes que a primeira vez é inevitável o susto, um certo pânico mesmo, porém se o fato se repete você já está devidamente preparado para reagir de forma tranqüila e imediata. A sugestão que tem sido feita é as pessoas combinarem estratégias com seus familiares, assim como determinados códigos de comunicação, para o caso deles precisarem ligar a cobrar para você. Afinal está mais do que confirmado que todas as ligações foram feitas, para suas pretensas vítimas, a cobrar. Temos que ser criativos, ou mais criativos, que certas mentes voltadas para atividades criminosas, pelo menos em tentativas semelhantes a essas. Afinal a impunidade esconde-se no anonimato. Outra sugestão: nunca pronuncie qualquer nome de pessoa da família ou dê qualquer tipo de informação que possa ser útil nessas tentativas.Temos agora novos governantes, todavia parece que teremos também os mesmos discursos, as mesmas promessas. Até onde esperam que possamos suportar esta situação? Nunca pegaram seus filhos, nunca ameaçaram suas esposas, claro, com a proteção de que desfrutam nem precisam se preocupar. Estão sempre cercados de seguranças, pagos aliás com o dinheiro do mesmo povo que abandonam.  E quanto a este, bem, este fica sempre obrigado a votar e a pagar impostos tantos sem retorno, e só. No mais, o nosso povo que se dane. Este é o meu desabafo de indignação, de revolta, sem maiores rodeios, sem prosopopéia. Deus nos proteja, amigos.