SORRISO ETERNO

    No dia 28 deste mês de março seu sorriso completaria 71 anos semeando alegria, amor, concórdia e solidariedade. Poderia estar ainda a ajudar muitos a serem felizes, realmente poderia, mas afinal nós não escrevemos o nosso script de vida. Alguns afirmam que o escrevemos sim, apenas não temos condições de o saber, de tomar conhecimento disso enquanto vestidos deste corpo que usamos no plano físico. Eu confesso que tenho minhas crenças e descrenças no que se refere ao oculto. No caso dela posso aceitar até a pesada carga de sofrimento que lhe foi imposta talvez como etapa de um carma que passa longe, muito longe da compreensão da maioria de nós, pobres seres mortais.  Mesmo sabendo, pela sua trajetória de vida, a qual nós conhecemos tão bem, que jamais ela  mereceria um final tão torturante, tão angustiante, jamais. Teria sido porém uma escolha da própria, numa decisão reencarnacionista antes de vir ou voltar à sua vida física? Alguns garantem que isto não só é possível como verdadeiro.  Outros afirmam que a dor, o sofrimento que nos passa ver um ente querido doente ou partindo desta vida pode, em certos casos, ter mais a ver com nós mesmos, que ficamos, do que com a pessoa que se vai. Algo que precisamos sentir, vivenciar, talvez como algum tipo de aprendizado para aprimorar nossa evolução.  Os meus conhecimentos são meio largos, no que se refere ao ocultismo, porém mais no campo da teoria. Por isso não pretendo iniciar nenhuma polêmica e nem teria argumentos para a sustentar. Do fundo do meu coração, onde o amor ainda ecoa e, à sua maneira, clama por aquele sorriso tão bonito, tão sincero, tão reconfortante, tão amigo, sinto às vezes que resiste um certo inconformismo. Afinal o coração dificilmente se submete à razão, sabemos disso. Ou não seria ele que tem razões que a própria razão sempre desconhecerá.  Pouco importa se domamos a emoção, se a trazemos mais para a razão com o objetivo, digamos, de amestrá-la, num exercício permanente para alcançar a consciência que  elucida a realidade.  Realidade que não se curva, mas entende a necessidade de manter a harmonia de prosseguir vivendo, nem tanto pela resignação, porém muito mais pelo entendimento do inevitável que a vida nos impôs.  Por uma certa independência de sentimentos o meu velho coração, ainda hoje, e quem sabe, sempre, vez ou outra apega-se a retalhos de uma longa colcha de recordações e me surpreende ao convencer a emoção, já domada, a aderir a instantes de uma saudade que acaba por ruir meu autocontrole.  Naqueles momentos rompe-se o equilíbrio. Afinal eu sou humano. Quem diga que nunca se abate, em momento algum, em época nenhuma, nem em datas que marcam definitivamente a sua vida, que sedimentam ainda mais um grande amor, pois que me desculpe, mas eu custo a crer.  Considerando que os dois corações se doaram por toda uma vida, o vazio repentino, ao nosso lado, onde estivermos, falará sempre mais alto que qualquer consolo.  Por mais que tenhamos superado a pior das fases da ausência definitiva, a solidão companheira se incumbirá de nos lembrar, lá uma vez ou outra, de gestos, de sorrisos, de atitudes, de palavras, de olhares, que desenharam uma quase eterna felicidade.  Para aquele sorriso a idade era uma simples etapa do ato de continuar a viver. Não afetava em nada, não envelhecia seu entusiasmo pela vida, jamais a preocupou.  Para nós aquele sorriso se extinguiu após 69 anos de existência, mas certamente deve prosseguir em sua missão em outro plano, em outros caminhos, eternamente solidário.  Muitos dizem que nossa vida não termina por aqui e eu tenho alguns motivos para crer que é verdade. Sei, todavia, que onde estiver aquele sorriso estará semeando amor, paz, alegria e muita felicidade. Quem sabe algum dia eu o reencontrarei…             ( Março/2005 )