SUBURBANO CORAÇÃO

    Precedendo ao lançamento do CD "Carioca", Chico Buarque deu entrevista ao Globo Revista sobre o Rio de Janeiro. Na conversa o artista fala do medo e das delícias de viver o cotidiano de um lugar de natureza exuberante, às voltas com a guerra civil do tráfico. Contudo, pelo tom de revolta, imaginei que as opiniões foram emitidas ao mesmo tempo em que um furúnculo lhe era espremido do corpo com os dedos: "… A cidade está degradada, a classe média apavorada, os canhões apontados para a favela e a Zona Sul aplaudindo. Há esse discurso de gente que diz que "é de bem" porque paga impostos. Como se o favelado, que não paga, porque não tem de onde tirar, porque é trabalhador humilde, estivesse sempre ligado ao tráfico.".Chico não foi econômico em demonstrar o estupor que lhe provoca o pus que escorre pelas ruas, pelas presenças, ao mesmo tempo, no alto comando da cidade, de Rosinha Matheus e César Maia: "O Rio de Janeiro está ferrado. Os políticos são os piores do Brasil…".Finalizou, falando sobre o subúrbio, tema de uma das canções do CD, dando a impressão de que o que restou do abscesso foi espremido sem aviso e com força: "Falo do Rio de hoje que eu vivo, do Rio que só fala de Zona Sul e favela e que se esquece do subúrbio. Outro dia fui comprar um mapa da cidade e me venderam o mapa que muito turista compra: tinha o Centro, a Zona Sul e a Barra. Não havia subúrbio no mapa. Fiquei escandalizado".Apesar de não ser carioca, possuo uma vivência de subúrbio capaz de compartilhar as dores do compositor. É nítido de que esses bairros, esquecidos pelo poder público e sendo usados como capitanias hereditárias, perderam além do lirismo, as suas principais características que "eram de ser "simplesinho", "pobrezinho", porém, "honesto e limpinho". Por ali, hoje, predominam o culto à criminalidade, ao desleixo, à pirataria e ao desrespeito. Acabaram os passeios do casal vestindo terno azul-marinho e costume. Traja-se camiseta regata, short do pijama e sandália de dedo. A discussão sobre o melhor jogador de futebol foi substituída pelas conversas sobre as gangues, os bondes ou o motivo do tiroteio da madrugada.Tanto Tvs, Dvds e Cds piratas como as roupas de grife de fundo de quintal são comercializadas ns feiras livres, livremente. Nos finais de semana, sem tréguas, as vozes de Zeca Pagodinho e Ana Carolina, invadem sua casa sem lhe pedir licença e o som do carro num rap – no último volume – ensurdece as ruas.     Na entrevista, desfazendo dúvidas, Chico confessa que Vinicius de Morais, é o único letrista de "Gente Humilde", uma homenagem aos bairros da Leopoldina.Na canção, o "poetinha" escreve o subúrbio do seu tempo, "de casas simples, com cadeiras nas calçadas e na fachada escrita em cima que é um lar". São lembranças de quando ele vivia com a primeira das suas nove esposas, usava terno para trabalhar no Itamarati e bebia apenas socialmente.

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