Um chefe muito estranho (II)

    Em diversos filmes de suspense, pelo menos um dos personagens acorda sempre no meio da madrugada apavorado com a repetição de um sonho que, de tão assustador, causa-lhe profundos pesadelos. Também já tive os meus. Hoje, ao contrário, as recordações sempre me levam ao riso farto. A lembrança dos incríveis desmandos do primeiro chefe que tive aqui no Banco no final dos anos 70 e início dos de 80 – protagonista de mil e uma escabrosas histórias – proporcionam material que deveriam constar dos anais. No entanto, vou me limitar a tentar rememorar apenas como era a rotina de um dia de trabalho naquele setor.Para melhor entendimento é preciso, descrever fisicamente o personagem e o seu local de trabalho, que, da vida pessoal, sabia-se que era casado, com um filho e morava em Copacabana: mineiro, sexo masculino, de cor branca; 1,85cm x 95kg; pele queimada de sol, gestos bruscos e cabelos pintados de acaju.  Do lado profissional, dizia-se que viera para o Rio de Janeiro fazer os cariocas trabalharem.  No amplo andar que ocupávamos na Uruguaiana, 174/18º andar, sua sala – sempre aberta nas horas de chegada e saída dos funcionários – localizava-se logo à esquerda de quem passasse pela porta de vidro transparente que sinalizava a entrada. Nas extremidades de uma ante-sala improvisada – acomodadas de modo a não lhe impedir a visão da porta de entrada – ficavam as mesas dos contínuos e secretário. Ou seja, ele via o movimento da porta, mas não o contínuo e o secretário em suas mesas. Se “habitah” também precisa ser descrito: ocupava uma imensa mesa de madeira que, apesar de nova, tinha o tampo completamente riscado e desgastado pelos sulcos que o bico das canetas esferográficas lhe infligiram, resultados da força e raiva com que assinava a série de papéis diários. Exceto as duas bandejas de entrada e saída de documentos, em cima da mesa, apenas um minúsculo mastro com a bandeira do Brasil. O território ocupado por sua cadeira era visivelmente demarcado no chão: o carpete sempre estava completamente destruído, mesmo que, constantemente substituído. Inimigo dos modernismos, não largava sua velha, pesada e surrada cadeira de braços sem rodinhas que, para qualquer movimento, ele arrastava para trás, levantava e aí, sim, deslocava o apetrecho para onde queria. Cada retorno da poltrona ao chão provocava um estrondo no andar. Do lado do "mesão" uma pequena mesa de datilografia onde, em cima, reinava a sua Remington manual.Às 08:45, religiosamente, lá estava ele, à sua mesa, de porta aberta. Para nós, a chegada às 09:00h era sagrada, tolerância até 09:15h. Chegar depois disso nem pensar, mesmo! Às 09:16 os pontos com as assinaturas dos funcionários eram recolhidos. Quem chegasse depois teria que passar a humilhação de assinar no “gabinete”. A cada barulho de freada brusca que ouvíamos ao longe, imaginávamos ser alguém do setor, que ao tentar driblar os carros para não chegar atrasado, tinham que fugir de um ou outro atropelamento nas ruas Uruguaiana ou na Presidente Vargas. Não adiantava nenhuma justificativa. Desconfiava de todas. Enquanto falávamos, colocava os seus óculos de intelectual de armação preta – que tinha como contraste, além das lentes transparentes, as "soldas" nas partes quebradas realizadas à base de esparadrapo, como hoje usa o "Seu Creyson". Outra mania paralela era a de morder nervosa e insistentemente a língua, cuja extremidade era exibida pelo canto esquerdo da boca. Replicava nossas desculpas através de sons ininteligíveis com “umum” “rumrum” e “umrum”. Mas não tinha perdão! Sacava da gaveta o seu caderno negro e anotava o atraso. Cada três atrasos acarretava um abono que, depois de um certo tempo se tornou automático, ou seja, quem tinha dois e sentia que iria chegar atrasado nem vinha até ao banco, voltava automaticamente para casa. Em outra gaveta o indefectível caderno vermelho. Nesse eram grifados os nomes de quem o havia retrucado por causa de alguma reprimenda. Esse caderno servia para a escolha de quem seria escalado para pequenos castigos como, por exemplo, ser escolhido para vir trabalhar numa semana de feriado enforcado. Depois disso fechava a porta.Essa máscara de durão, no entanto, com as portas fechadas, deixava dúvidas quanto ao que acontecia na sala quando recebia visitas importantes. Dizíamos, de brincadeira, que ele ficava brincando de "adoleta" (aquela brincadeira de bater as mãos com outra pessoa).Lá pela 10:00h vinha o melhor acontecimento da manhã: o treinamento de “esporro”! No intuito de chamar a atenção de alguém por suposta irregularidade, o “chefão”, realizava um treino do que ia dizer. O início do “show” era percebido do lado de fora, mesmo que a porta estivesse fechada, quando ele começava a falar sozinho e esmurrar as teclas da Remington. Atos que, realizados simultaneamente, sinalizam que o “treino” havia começado. Após o “apronto”, tocava a campainha para comunicar ao secretário – para transmitir ao contínuo – que deveria chamar o “escolhido do dia”. Um toque representava a presença de um dos contínuos na sala e dois toques à do secretário. No entanto, de vez em quando, ficava fora de si, e fazia uma barafunda tão grande de toques que, para não dar confusão, tanto os contínuos como o secretário o atendiam ao mesmo tempo. Depois, nervoso, trancava-se com o “escolhido do dia” e cuspia o seu veneno. Como só achávamos graça nos “treinos”, não dávamos a mínima para o jogo em si.  Lá pelas dez horas saia para ir ao lavatório, como gostava de dizer. Para apreciar suas idas ao banheiro era necessário comprar ingresso antecipado, porque a disputa era acirrada por um lugar no recinto. A primeira providência ao entrar no WC, era enfiar a perna direita – sem levantar a calça do terno – na lixeira para espremer junto ao fundo o acúmulo – já há essa hora – de papéis toalhas molhados e sujos. Depois molhava o cabelo e o espelho à sua frente, renovando o penteado acaju. Era a hora que parecia um pato tomando banho: molhava toda a extensão do espelho e às vezes quem estava próximo. Somente depois dessas providências é que urinava. Como fazia tudo bruscamente e com pressa, não tinha paciência para acreditar na máxima de que o “último pingo é sempre da cueca” e, ao terminar, desfilava pelos corredores com aquela mancha úmida à altura do zíper da calça já bastante amarelada pela repetição diária. A calça, aliás, era "ajustada" acima do umbigo, o que acabava chamando atenção por ficar "pescando siri", como diziam os antigos.A propósito, sabedor de que o banheiro era um ótimo refúgio para o lazer dos funcionários tomou duas providências: Como a sua iminente presença era denunciada pela barulheira que fazia ao se aproximar, descobriu que os jornais estavam sendo escondidos na bancada que ficava em baixo da pia. Resultado: recolhia os exemplares, colocava debaixo da torneira e jogava no lixo. Depois, não obtendo sucesso, partiu para ignorância: ordenou que as luzes dos cubículos fossem apagadas. Só permitia a de emergência. Em determinados dias da semana, havia uma operação de guerra na divisão. Tudo para proporcionar a um colega que, sem alternativa, fazia seis horas e cursava a universidade pública na parte da tarde. Para vigiar a entrada e saída da hora do almoço, o nosso chefe deixava a porta aberta coincidentemente no horário que o funcionário-estudante precisava sair. Aí acontecia o seguinte: os contínuos e o secretário, sob os mais absurdos argumentos, juntavam-se na porta de entrada da sala do “homem”, tapando-lhe a visão e o estudante saía andando de costas para a porta, como se estivesse entrando, de modo que, a qualquer dificuldade dos colegas, fingisse que estava voltando do lanche regulamentar de quinze minutos. Quando o sujeito cismava de não ficar sentado quieto, o que poderia ser catastrófico para o esquema de fuga, a saída era aproximar-se da parede de vidro da sala – às costas da mesa – com ampla visão para a rua e “inventar” a passagem de um travesti andando na calçada. O “chefão”, se interessava logo pelo assunto e juntava-se ao grupo para enxergar o que não existia. Ainda sobre o estudante um adendo importante: como as horas em que ficava no trabalho eram insuficientes para cobrir o volume das suas tarefas diárias, invariavelmente permanecia trabalhando sozinho depois das 18:30h. Fato que o tornava aos olhos do nosso chefe como um exemplo de dedicação e responsabilidade a ser seguido.Como já expliquei, o livro de ponto recolhido à sua mesa se constituía num controle infalível sobre quem chegava atrasado. Mas, não único! Seu olhar era de lince e sempre percebia quem estava calçado com tênis ou trajava roupas não tradicionais, fossem homens ou mulheres. Aí não tinha jeito! Não deixava assinar o ponto! Se não trocasse, não ganhava o dia.As tardes geralmente eram reservadas para atender as "partes" (representantes das instituições). Era quando deixava à mostra suas facetas de contador de bravatas e mentiras. Nessas ocasiões desencavava um mesmo postal amarelado pelo tempo e gasto pelo contato manual e um amarrado de cartas de procedência duvidosa, que dizia ser das suas admiradoras internacionais, mais precisamente de uma imaginária namorada suíça. Aliás, o ar condicionado era ligado sempre no máximo frio, para fazer um "clima europeu". Quando o assunto passava para a parte técnica, apressava a conversa, voltando para os seus monossilábicos “umum”, “rumrum” e “umrum”, sem esquecer, é claro, dos óculos e das mordeduras da língua.Sabíamos que estava de bom humor por dois acontecimentos. Um era quando sacava da gaveta um pacotinho de pastilhas de hortelã Garoto e nos oferecia uma balinha. Ou quando, mesmo de porta fechada, podia ser ouvido o som de uma retreta da Banda de Nova Lima vindo do seu velho gravador portátil.Lá pelas 18:15h vinha o “passeio das câmeras”: dando como desculpa ter que resolver determinado assunto direto com o setor, colocava um processo debaixo do braço e vinha observar o que estava se passando na divisão. Sua vigília era realizada direto do corredor, já que o seu queixo ultrapassava a altura das divisórias. Sua cabeça funcionava com um radar de submarino que imerso, permite enxergar o que acontece em cima da água. Mas o objetivo era um só: assegurar a atividade normal até o fim do horário regulamentar.O “passeio das câmeras” invariavelmente surpreendia funcionários em momentos de descontração, característicos dos finais de expediente. Nosso chefe ficava possesso! Em timbre de voz que desse para ser ouvido por todos, dizia que aqueles momentos deveriam ser ocupados por todos para o estudo de relatórios, processos antigos, etc. Gabava-se que, espremidos dentro da sua pasta “007”, havia uma “montanha” de documentos que levava para casa – todos os dias – para analisar a noite, depois do jantar. À guisa de gozação, dizia-se que ele apregoava que não dormia sem ler uma resolução e uma circular baceniana.A linha imaginária que delimitava o início do corredor da ante-sala da chefia parecia largada de maratona. Todos ficavam perfilados para que, quando os ponteiros do relógio da recepção ultrapassassem 18:30h, houvesse uma verdadeira corrida em direção aos elevadores. E ele, impotente ante a cena, repetia o surrado o chavão de que fazia questão absoluta de que todos os funcionários saíssem e chegassem exatamente no horário. E, curtia uma venenosa ironia ao exemplificar sua preferência dizendo que, quando desse a hora, quem estivesse no meio da datilografia da palavra FRANCISCO, deveria escrever o “FRAN” e deixar o “CISCO” para o outro dia.Por seus perniciosos pensamentos, palavras e obras e palavras esse chefe conseguiu tornar homogêneo uma divisão classificada, inicialmente, como irremediavelmente heterogênea. Solidariedade, companheirismo e profissionalismo compuseram o triunvirato que derrubou o déspota. E a amizade ficou. Sobrevive aos anos e as distâncias. Por isso sei que, como numa corrente, aparecerão dezenas e até mesmo centenas de outras histórias sobre o sujeito. Mas, é melhor parar por aqui. Ele é indigno de lembranças. E ainda causa pesadelos. Mas, é verdade, também muitos risos.Infelizmente não testemunhei o “grande finale” dessa história: certa noite, depois do expediente, a porta de um dos elevadores do 174 abriu-se e dele saiu apressadamente o “homem”. Tropeçou, e, ao equilibrar-se deixou cair pesadamente no chão a sua inseparável pasta 007 que teve o seu conteúdo escancarado aos presentes: tubos de pastilha Garoto, de drops Dulcora e do “dentifrício” Eucalol, uma escova de dente, três pentes de várias cores e alguns recipientes de tintura para cabelo da marca Crescim 2000!E aí? Dá para acreditar que o BC já teve um chefe com tão proeminente "currículo"?Obs: O título “Um chefe muito estranho II” tem a pretensão de servir como continuação de uma crônica – sob a mesma designação – da colega e poetisa Maria Isabel Corsetti Orlandi, autora da idéia de contar e publicar algumas das peripécias do incrível personagem, em publicações voltadas para o funcionalismo do BC.