“UM NOVO FIM”

    Em outubro de 2002, meu bom amigo Alexandre Amaral Scotti, mineiro da melhor estirpe, enviou-me um texto atribuído a Chico Xavier. O título é simples, “Mensagem”, mas esta é muito profunda.  Eu já vivia uma fase bastante difícil da minha vida àquela altura e me agarrava à esperança e à fé procurando não me deixar sufocar pela angústia. Tentava acreditar no que as evidências contrariavam. Eu não podia desistir de esperar por um milagre.  Nos momentos em que deixava a desesperança falar eu me punha a imaginar se  conseguiria mesmo continuar a viver caso o pior acontecesse. Tal idéia me apavorava. Perder a razão maior de minha existência era algo que se anunciava como o meu fim. Não  via como refazer o meu caminho, sozinho, sem ter ao meu lado os passos que me acompanhavam por quase 40 anos. Não tinha forças para reagir à derrota iminente. Foi quando recebi o texto a que me refiro acima. Li e reli e decidi guardá-lo para novamente relê-lo agora. Reproduzo aqui a parte final da referida “Mensagem”, atribuída a Chico Xavier: “Tu escolhes, recolhes, eleges, atrais, buscas, expulsas, modificas tudo aquilo que te rodeia a existência. Teus pensamentos e vontades são a chave de teus atos e atitudes… São as fontes de atração e repulsão na tuajornada vivência.Não reclames nem te faças de vítima. Antes de tudo, analisa e observa. A mudança está em tuas mãos. Reprograma tua meta,busca o bem e viverás melhor.” Justamente nesse tempo em que busco reprogramar  minha meta de vida, reorganizar o meu caminho e seguir em frente, sem esquecer o passado, mas também sem permitir que ele continue me torturando, e/ou me derrote, reli várias vezes a “Mensagem”, de Chico Xavier.  “Teus pensamentos e vontades são a chave de teus atos e atitudes …” Se temos que continuar a viver devemos merecer esta graça, levantando a cabeça, sacudindo a poeira, e, apesar dos revezes, das quedas, reerguer-nos sempre e prosseguir. Usar nossos pensamentos para melhor construir nossos atos de vida, valer-nos de nossa vontade com a determinação de quem até pode, e deve, rever atitudes, ou aprimorá-las, adequando-as à nova fase de nosso viver, aprendendo mesmo com a dor e com o sofrimento. Há que estar atento a todos os sinais, venham de onde vierem.  “Não reclames nem te faças de vítima”… Se tudo faz parte deste jogo do viver, do que alguns chamam de destino, temos que começar a entender o inevitável, o imutável, até mesmo o imponderável. Claro que temos o tal livre arbítrio, portanto devemos usá-lo sem nos preocuparmos se conseguiremos ou não alterar nossa sina. Esta  jamais conheceremos previamente, não nos é facultado este poder, mas também não importa, pois viver é construir, é ser solidário, é saber amar e ser amado, é aceitar as diferenças e conviver com elas. Seja qual for o problema que nos atinja devemos sair da postura de vítima e buscar as soluções, ou os novos caminhos que trilharemos para continuar vivendo. Não ficarmos a nos fazer de vítima o tempo todo. “A mudança está em tuas mãos”, diz o texto de Chico Xavier. Julguei que já tivera problemas em minha existência antes, costumava lamentar-me por eles, agora porém a vida me obrigava a enfrentar um dos maiores. O importante é decidirmos que queremos continuar a viver, até em memória e por honra de toda a felicidade que a própria vida nos presenteou por tantas décadas. Para isso havia que mudar. “Antes de tudo, analisa e observa.” Foi o que comecei a fazer e continuo a exercitar. Estou acrescentando mais conhecimentos ao que eu já sabia e buscando ainda mais. Atento, muito atento ao que se passa a volta de mim, ouvindo, lendo, percebendo os sinais, os avisos, fugindo um pouco da materialidade, não me deixando envolver pela confusão, pela barafunda, sem me alhear, porém, da realidade que me cerca.  “Reprograma tua meta, busca o bem e viverás melhor.” Havia mesmo que rever, que reprogramar ou mergulhar no vazio, na solidão, no silêncio, não da paz, da serenidade, mas do angustiante sofrimento eterno que martiriza, que mortifica, que destrói, que leva às trevas e não segura a vida. Algo como sugerem esses versos de meu poema “Imortal”, escrito em agosto / 2001: “E numafuga doque estejaescrito,Escapando dodestinosensabor,Libertos deincertezas aflitivas,   Distantes docorrupio, da roda-viva,…” Ou como também escreveu o próprio Chico Xavier: “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.”