Edição 01 - de 08/01/2019

As lágrimas dos crocodilos

Segundo o Procon de São Paulo, em sua última pesquisa de 13.12.2018 a taxa média do empréstimo pessoal nos 6 maiores bancos do país foi de 6,27% ao mês, a taxa média do cheque especial foi de 13,26% ao mês.

A Taxa Selic, chamada de taxa básica de juros, é de 6,50 % ao ano.

Perceba, nós não estamos falando de países diferentes, estamos falando do mesmo país e da mesma economia. Então como explicar que um cidadão pagará em um mês a um banco pelo seu empréstimo pessoal o mesmo que receberia em um ano pelo seu título federal?

A Febraban está lançando um pequeno livro tentando explicar o inexplicável. Ela tem dois bons motivos para isto: um novo governo se inicia e, portanto, é tempo de verter as suas lágrimas de crocodilo: A culpa é dos impostos, do depósito compulsório, do poder judiciário, enfim de tudo, menos da concentração bancária e da forma como o sistema financeiro nacional está “encastelado” dentro da economia brasileira. Velando por esta estrutura está o Banco Central, fazendo o papel do Sétimo guardião da ponte levadiça, e que o mercado espera em breve, esteja alojado confortavelmente dentro do próprio castelo. O segundo motivo, num exemplo clássico de como nossa economia funciona, a publicação poderá ser abatida do seu baixíssimo imposto de renda, já que pode ser classificada no fisco como um incentivo cultural.

Os bancos possuem lucratividade alta e, mesmo após reduções sucessivas da taxa Selic, não reduziram os juros cobrados dos consumidores e empresas. Eles vivem fazendo aquisições e fusões, onde só eles ganham. Hoje, meia dúzia de instituições concentram 90% do sistema financeiro, acumulando lucros gigantescos, sem oferecer contrapartidas para a sociedade, que paga os juros mais altos do mundo, tarifas abusivas, spread nas alturas e bônus milionários para altos executivos. Além disso, hoje é um dos setores que menos gera empregos no país.

No final do século XIX, os EUA se desenvolviam rapidamente até que começou a ter setores estratégicos de sua economia sendo monopolizados: petróleo (Rockefeller), aço (Carnegie), ferrovias (J. Gould), etc. Os magnatas foram de extrema importância para o capitalismo americano, até que se tornaram um empecilho para este mesmo desenvolvimento pois um mesmo grupo econômico controlando setores estratégicos acabaria engessando a economia e impedindo o seu crescimento. O que se seguiu é história: No século XX os EUA passaram a sistematicamente combater esta concentração perniciosa por intermédio de uma forte legislação antitruste.
Proteger os consumidores e a concorrência na economia alavancaram a economia americana para o posto número um do planeta.

A alta sofisticação do nosso sistema financeiro, para qual o Bacen se ufana, não demonstra a sua eficácia, apenas a sua alta lucratividade, deslocada em uma economia que não cresce e na qual os desempregos se mantem em níveis intoleráveis.

As lágrimas de crocodilos da Febraban não disfarçam as correntes produzidas pelo nosso modelo de sistema financeiro, que aprisionam a sociedade brasileira.

(continua)

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