Edição 0 - 16/06/2003

O BC NA PINDAÍBA

Deu na POCA de ontem:

“O BC NA PINDAÖBA

Estela Caparelli

Com os cofres vazios, a institui‡Æo atrasa contas e sofre
para pagar os computadores usados para gerenciar todo o sistema financeiro.

Inadimplente, correndo atr s da piedade dos credores,
inventando gambiarras para as tralhas que h  tempo nÆo funcionam – e sempre com
o cuidado de providenciar um baldinho para aparar a  gua que pinga do teto
carcomido. A descri‡Æo, apropriada para a vida de um brasileiro comum nos dias
de hoje, tamb‚m serve … perfei‡Æo para o Banco Central. O BC, que leva toda a
fama de vilÆo pela pol¡tica de juros altos que pratica, est  sofrendo as
conseqˆncias do arrocho. Como qualquer cidadÆo de or‡amento curto, tem sido
obrigado a fazer malabarismos para continuar funcionando. Acumula contas
atrasadas, nÆo tem dinheiro para fazer a manuten‡Æo do pr‚dio nem para comprar
material de trabalho.

A pen£ria vem dos ajustes fiscais iniciados j  nos tempos do
governo de FHC. Em fevereiro, os cofres ficaram ainda mais vazios depois de um
corte de R$ 14 bilhäes nos gastos do governo, anunciado pelo presidente Luiz
In cio Lula da Silva. Sobram apenas R$ 126 milhäes para o BC bancar o
funcionamento de seus 15 pr‚dios, em dez capitais. A quantia ‚ quase a metade
dos R$ 285 milhäes de 2002.

De bolso vazio, o BC nÆo teve escolha. Decidiu priorizar o
pagamento dos funcion rios terceirizados das  reas de seguran‡a e deixar de lado
outras faturas. Entre janeiro e abril, deu calotes na pra‡a como milhäes de
brasileiros em dificuldades financeiras. Deixou de pagar as contas de  gua, luz
e telefone. S¢ conseguiu regularizar a situa‡Æo em maio, gra‡as … libera‡Æo de
um dinheiro extra pelo Tesouro.

Apesar da ajuda, o BC continua no buraco. Na semana passada,
come‡ou a negociar as condi‡äes de pagamento de dois supercomputadores. As
m quinas sÆo respons veis por informa‡äes estrat‚gicas sobre todos os bancos
brasileiros. “Se outros ajustes forem feitos, a seguran‡a dos funcion rios e o
funcionamento do banco serÆo comprometidos”, diz JoÆo Ant“nio Fleury, diretor de
administra‡Æo do BC. NÆo ‚ preciso esmiu‡ar balan‡os para conferir a situa‡Æo.
Basta uma r pida incursÆo na sede do BC, em Bras¡lia. No 5§ subsolo,
computadores que registram informa‡äes de todo o sistema financeiro nacional sÆo
protegidos de uma infiltra‡Æo de  gua no teto por lonas e baldes. No 6§ subsolo,
vazamentos inutilizaram uma sala em que deveriam estar estocadas milhares de
c‚dulas de reais. No mesmo andar, uma m quina de triturar notas velhas est 
abandonada, … espera de reparo.

Com a crise, o banco foi obrigado a racionar energia. O
ar-condicionado e a luz sÆo desligados durante a hora do almo‡o e depois do
expediente normal, a partir das 18 h 45. Como em muitos casos o trabalho se
estende, v rios funcion rios j  acrescentaram um novo item … lista dos objetos
imprescind¡veis no dia-a-dia: uma lanterna. Eles tamb‚m foram obrigados a
colocar a mÆo no bolso para conseguir imprimir documentos. Como faltam cartuchos
em algumas m quinas impressoras, pagam c¢pias com o pr¢prio sal rio.

O corte tamb‚m afetou  reas estrat‚gicas. Os investimentos em
tecnologia ca¡ram de R$ 92 milhäes em 2002, para R$ 51 milhäes, neste ano. A
redu‡Æo vai se refletir diretamente na qualidade da fiscaliza‡Æo dos bancos. J 
o dinheiro para treinamento – mais de R$ 4 milhäes em 2000 – ser  de R$ 890 mil em
2003.

A falta de pessoal ‚ outra dor de cabe‡a. Com a reforma
da Previdˆncia, cerca de 700 funcion rios deverÆo se aposentar nos pr¢ximos
meses. Para agravar a situa‡Æo, o banco est  sendo abandonado por conta dos
baixos sal rios. Cerca de 30% dos analistas e 50% dos procuradores que entraram
por concurso desde 1997 deixaram a institui‡Æo. Muitos conseguiram remunera‡äes
maiores em outros ¢rgÆos do governo. Um analista do BC recebe R$ 3.600 por
mˆs. Um auditor fiscal da Receita, R$ 5 mil
. (grifos nossos)

Edições Anteriores RSS
Matéria anteriorBoletim n. 316, de 13/06/2003
Matéria seguinteFilipeta de 18/06/2003