Transcrevemos abaixo correspondência dirigida ao SINAL por seu filiado Fábio R. Corrêa:
Agora falando s‚rio.
Vi funcion rios dividindo o jornal, vidos pela not¡cia da
aprova‡Æo de 1% de reajuste salarial do servidor e, mais deprimente, calculando
a ajuda do abono de R$59,00 por dois meses. O 1% ‚ retroativo a seis meses e
toda a soma nÆo reverte em mais de 10% do sal rio, em m‚dia, no pagamento dos
atrasados. Ajuda considerada importante, pelo visto. Agora entÆo, que o abono
foi incorporado, mais j£bilo.
Em junho de 2001, os funcion rios do Banco Central, sentindo
a perda de seu poder aquisitivo ap¢s os anos de negligˆncia de FHC com os
servidores, iniciou campanha pela recomposi‡Æo de seus sal rios. Passaram-se
dois anos de muita discussÆo, negocia‡Æo com a administra‡Æo do BC, governo e
oposi‡Æo e, sobretudo, de desgaste do funcionalismo.
O estresse sofrido pelo funcion rio que, em greve, paralisa
suas atividades ‚ grande. um sacrif¡cio extenuante mobilizar-se sabendo que
outros nÆo param. Que alguns nÆo se unem possibilitando uma sa¡da mais r pida e
poupando a todos. Pior que isso ‚ nÆo enxergar qualquer empenho da Presidˆncia
de uma Institui‡Æo que vem sendo degradada.
A situa‡Æo do Banco Central ‚ alarmante. Vislumbra-se para
breve um v cuo no quadro de pessoal que j ‚ deficit rio e conta com 842
funcion rios em condi‡äes de se aposentar hoje, e mais 1.500 em trˆs anos.
Ou seja, perda prov vel dos 2.342 funcion rios mais
experientes de um total de 4.721. Os concursos, al‚m de receber, em regra,
funcion rios inexperientes, nÆo tem conseguido retˆ-los com os sal rios
oferecidos atualmente. Do £ltimo concurso, 33% dos analistas e 59% dos
procuradores j abandonaram o barco … deriva. O Aur‚lio registra deriva como sem
rumo, solto, perdido.
Realmente, com as perspectivas atuais, h que se pensar em se
manter numa Institui‡Æo que nÆo preza pela qualidade intelectual dos
funcion rios, sempre proporcional aos proventos recebidos.
Al‚m disso, o Banco Central vem sendo esmagado com o corte de
verbas anuais, que implode a capacidade de treinamento dos funcion rios, a
qualidade de vida e mesmo as estruturas dos pr‚dios que vˆm se tornando
insalubres.
O Presidente do BC precisa enxergar isso. NÆo ‚ poss¡vel mais
admitir seu silˆncio justificado com a desculpa de o Banco Central estar sendo
muito criticado pela alta taxa de juros. O Presidente Henrique Meirelles deve se
manifestar e defender o futuro da Insitui‡Æo que dirige.
Em 1969, Chico Buarque, ap¢s um silˆncio duradouro que
contrariava seu costumeiro envolvimento pol¡tico e defesa da democracia
brasileira, questionado pelo povo e pela classe art¡stica, comp“s "Agora falando
s‚rio". A letra da m£sica traz trechos que lembram Henrique Meirelles: "Fa‡o a
mala e corro pra nÆo ver banda passar". Outro trecho ainda mais apropriado: "
Agora falando s‚rio, eu queria nÆo mentir. NÆo queria enganar, driblar, iludir.
Tanto desencanto. E vocˆ que est me ouvindo quer saber o que est havendo com
as flores do meu quintal? O amor-perfeito, traindo, a sempre-viva morrendo e a
rosa, cheirando mal". isso a¡ Sr. Henrique Meirelles, este nÆo ‚ o Bank
Boston, e o nosso jardim, virando brejo, sua responsabilidade, precisa ser
tratado. Gostaria de saber: o senhor nÆo est vendo?
Ainda a m£sica, genial: "Agora falando s‚rio, preferia nÆo
falar nada que distra¡sse o sono dif¡cil como acalanto. Eu quero fazer silˆncio,
um silˆncio tÆo doente do vizinho reclamar. E chamar pol¡cia e m‚dico, e o
s¡ndico do meu pr‚dio pedindo pra eu cantar". Os funcion rios, depois desses
dois anos, estÆo cada vez mais despertos. Olhos vidrados buscando um horizonte.
E o seu silˆncio, doentio, est nos ensurdecendo. Queremos vˆ-lo na m¡dia,
denunciando a calamidade.
O comitˆ instalado no dia 2 de julho nÆo mostrou boa vontade
com os termos de nosso PCS. Acreditamos que o Sr. Henrique Meirelles deve exigir
a revaloriza‡Æo do funcion rio do Banco Central, tamb‚m respons vel pelo
progresso deste pa¡s. Gente que investiu em si pr¢prio durante toda a vida e
traz para os quadros deste Banco Central a competˆncia para cumprir as metas do
novo governo. O valor de nosso PCS, de 170 milhäes de reais, que j vem sendo
questionado, precisa ser defendido com unhas e dentes pelo Presidente Meirelles.
Este custo, na verdade, ser pago em boa parte pelas aposentadorias, pois os
fundos que pagam ativos e aposentados sÆo diferentes. Este valor nada mais ‚ do
que o custo necess rio para se igualar o sal rio do BC com o de institui‡äes de
mesmo n¡vel, evitando o caos. Muitos sÆo os argumentos, s¢ que precisam de uma
voz de peso que os defenda.
Portanto, Sr. Henrique Meirelles, se o senhor j viu algu‚m
dar um murro numa mesa de negocia‡Æo, ‚ exatamente isto que n¢s esperamos: o seu
murro na mesa. Agora falando s‚rio.
F bio R. Corrˆa

