Edição 26 - 31/08/2011

QVT: Nova moda ou novo modo de Gestão Empresarial?

 

                                                                                                                       Edição nº 26 – 31 de Agosto de 2011  

 

Qualidade de Vida no Trabalho:
Nova Moda ou Novo Modo de
Gestão Empresarial?

 

    “É a QVT compensatória, que tão-somente prepara o trabalhador para o cumprimento de um novo ciclo de trabalho no qual ele irá defrontar-se com as mesmas condições que produziram a busca de compensação”.

    “É a QVT preventiva, que busca o casamento entre produtividade e bem-estar, que se expressa por verbalizações do tipo: ‘Hoje trabalhei bastante. Estou me sentindo cansado, mas feliz".

    Leia, a seguir, a íntegra do artigo:

    Toda pessoa que, hoje em dia, trabalha, sabe que, de tempos em tempos, tem novidade no mundo do trabalho. Círculos de Controle de Qualidade, gestão just-in-time, reengenharia são alguns dos nomes de modas em Administração de Empresas que, no tempo recente, estiveram entre nós. Tem quem ache – e é gente de peso – que há uma necessidade de, de tempos em tempos, nomear-se ou renomear-se experiências ou experimentos de gestão corporativa, em um movimento que teria como lógica essencial o mudar para manter. Vale dizer, haveria muito mais novas modas do que novos modos de gestão organizacional e do trabalho. 

    Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) tanto pode ser uma nova moda quanto um novo modo de gestão.

    É uma nova moda, atualmente em voga, quando se encontra inteiramente circunscrita à dimensão da reposição das forças objetivas e subjetivas de quem trabalha. É a QVT compensatória, que tão-somente prepara o trabalhador para o cumprimento de um novo ciclo de trabalho no qual ele irá defrontar-se com as mesmas condições que produziram a busca de compensação. Atividades de relaxamento, de combate ao estresse, de lazer – como, por exemplo, a prática de ioga, massagem, dança de salão – localizam-se nesse terreno. É pertinente assinalar que tais atividades, assim como um expressivo conjunto de alternativas hoje oferecidas pelas organizações a quem nelas trabalha, são todas muito bem-vindas, representando um avanço importante nas relações empresa – empregado. O problema reside, então, no fato de essa iniciativa não vir acompanhada de ações que modifiquem positivamente a realidade de trabalho. QVT neste viés é de natureza paliativa, pois trata o desgaste do trabalhador como aquela velinha de aniversário que a gente apaga e, em seguida, ela reacende.

    Por outro lado, QVT é também um novo modo de gestão do trabalho, hoje ainda pouco praticado, quando altera, de forma positiva, as condições, a organização e as relações socioprofissionais de trabalho. É a QVT preventiva, que busca o casamento entre produtividade e bem-estar, que se expressa por verbalizações do tipo: “Hoje trabalhei bastante. Estou me sentindo cansado, mas feliz”. Nesse enfoque, a necessidade de atividades do tipo antiestresse, típicas da QVT paliativa, tende a ser residual e assume um caráter secundário  em um Programa de Qualidade de Vida no Trabalho (PQVT).

    Implantar um PQVT de feição preventiva requer planejar ações em diferentes campos. Uma nascente abordagem, a Ergonomia da Qualidade de Vida no Trabalho (EQVT), com base em estudos e intervenções nas organizações, tem indicado duas dimensões estratégicas. A primeira situa-se na esfera da transformação positiva da  cultura organizacional, ou seja, é primordial uma reciclagem de valores e crenças, hoje  centrados quase que exclusivamente na produtividade e no desempenho dos trabalhadores. Nesse caso, a comunicação organizacional tem papel de destaque. A segunda dimensão diz respeito às mudanças nas condições (ex.: posto de trabalho), na organização (ex.: regras, rotinas, procedimentos) e nas relações socioprofissionais de trabalho (ex.: interações hierárquicas).

    Nesse contexto, é imperativo resgatar o paradigma da participação efetiva dos trabalhadores na vida das organizações. A participação não pode e não deve ser estratégia de sedução para a melhoria de performances e, consequentemente, aumento da produtividade. Ela precisa ser um valor que permeia a cultura organizacional e estrutura práticas de trabalho e gerenciais. Ela é efetiva quando de fato distribui o  poder e cada trabalhador pode opinar, planejar, executar, avaliar e replanejar as tarefas, os objetivos organizacionais. Dois ingredientes são inerentes ao pressuposto da participação como requisito de QVT preventiva: autonomia responsável e liberdade de criação.

    Aprimorar, na direção da melhoria efetiva da QVT de quem trabalha, revela-se, assim, não apenas uma nova moda, mas um novo modo de gestão do trabalho. Suprimir ou, ao menos, diminuir a distância presentemente existente entre tais nova moda e novo modo, deve ser um compromisso das instituições socialmente responsáveis, de todos aqueles que, dia após dia, nelas trabalham.

     José Vieira Leite.
     Diretor de Qualidade de Vida no Trabalho (SINAL-RJ), Pesquisador (UnB), Pós-doutor em Ciências Humanas (PUC-Rio).

     Esta matéria é uma contribuição do Grupo QVT – SINAL-RJ.     

 

 

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