Edição 0 - 10/02/2004

AI DE NÓS, POLICARPOS QUARESMAS DOS NOVOS

 

Como no livro de Lima Barreto, os novos Policarpos do Banco Central – os servidores mais antigos – estÆo vislumbrando ao longe o seu triste fim.



Ao longo dos anos de carreira, nÆo chegamos ao ponto de querer substituir o portuguˆs pelo tupi-guarani como l¡ngua-p tria, mas fomos tÆo cr‚dulos e confiantes quanto o ingˆnuo personagem – o cidadÆo que se tornou major s¢ para dar a Floriano “MÆo-de-Ferro” Peixoto o apoio irrestrito de um brasileiro em prol de seu pa¡s.



Hoje, 25 anos ou mais de trabalho no BC, o que vemos depois de tanto tempo de servi‡os prestados ‚ mais uma de quantas “rasteiras” o governo vem dando seguidamente nos servidores, fazendo da frustra‡Æo e da sensa‡Æo de arrependimento uma t“nica entre eles.



Primeiro foi o ingresso compuls¢rio no RJU, a conseqente “expulsÆo” da CENTRUS e a dependˆncia, para sempre, dos humores governamentais. Seguiram-se a EC-20 a nos cobrar “ped gio” e os longos anos de arrocho salarial com reajustes ris¡veis. Pasmos, fomos atropelados por uma nova “reforma” da Previdˆncia que nos contempla com mais anos de servi‡o.



Agora, vem “cair a ficha” de mais uma injusti‡a flagrante: a revisÆo dos £ltimos n¡veis da carreira parece mesmo ter deixado de ser prioridade, contrariamente ao prometido pelo governo na Mesa de Negocia‡Æo que formulou o PCS.



No calor das tratativas por um Plano de Cargos de h  muito esperado, e devido ao fato de o teto salarial estar entÆo limitado a pouco mais de R$ 8 mil, houve um compromisso verbal, na Mesa, de, tÆo logo aprovada a reforma da Previdˆncia e o aumento do limite, voltar-se a estudar formas de estender …s £ltimas referˆncias reajustes adequados ao tempo de servi‡o prestado que elas abrangem.



Foi praticamente uma imposi‡Æo: o montante destinado ao PCS estava definido – ponto final – e tinha que ser distribu¡do entre todos os servidores, donde se haver contemplado aqueles com menos anos de Casa, que naturalmente, como os demais, tamb‚m estavam com sal rios defasados.



Agora, em 2004, surge a novidade: a “nova e revolucion ria sistem tica de negocia‡Æo do governo” nÆo ‚ a mesma. NÆo existe mais a Mesa paralela, e a Grande Mesa vai reunir-se no pr¢ximo dia 19 para tra‡ar “pol¡ticas gerais” para o funcionalismo; ou seja, o humor dos governantes federais est  em a‡Æo.



A¡ entram o Banco Central, seu Presidente, sua Dire‡Æo: e a promessa de revisÆo dos £ltimos n¡veis, onde fica? Talvez pela distƒncia e uma natural pouca acessibilidade individual, nÆo tenham chegado ao Presidente Meirelles as queixas, lamentos e pleitos que chegam ao SINAL, desde as 7 horas da manhÆ.



SÆo os servidores de fim de carreira, dos quais muitos escreveram ao sindicato concordando com um PCS que lhes era desfavor vel porque consideravam importante a valoriza‡Æo dos mais novos. Telefonam e passam e-mails perguntando se h  alguma novidade quanto … reversÆo da provisÆo da CENTRUS, recurso leg¡timo aguardado com ansiedade para evitar uma nova incursÆo a empr‚stimos, que j  lhes reduziram o patrim“nio e os colocam nas garras da agiotagem oficial dos bancos.


Muitos estÆo “presos” a eles, pagando juros escorchantes at‚ por conta de que, alijados da possibilidade de obter empr‚stimos juntos … Centrus por pendˆncias judiciais alheias … sua vontade, nÆo terem mais como fazer para enfrentar os custos da vida que nÆo param de crescer.



O sindicato vem lidando no dia-a-dia com os problemas financeiros dessa parcela do funcionalismo, que se vˆm tornando mais rotineiros com o descaso e a injusti‡a manifestados pelo governo com rela‡Æo a seus sal rios e a alguns leg¡timos pleitos trabalhistas pendentes que se acumulam.



Assim ‚ que, neste in¡cio de ano, quando estÆo obrigados ao pagamento de IPTUs e IPVAs (estes, para aqueles que ainda nÆo venderam seu carro) car¡ssimos – como s¢em ser atualmente os impostos que oneram a classe (ex-)m‚dia -, vˆm os servidores bater … porta do SINAL querendo saber as £ltimas not¡cias sobre a reversÆo.



Ele ‚, no horizonte pr¢ximo, o dinheiro extra de que necessitam para pagar despesas obrigat¢rias que antes faziam ordinariamente com seus sal rios, ou para quitar d¡vidas vencidas, com o objetivo de recuperar seu cr‚dito na pra‡a.



Outros tantos tˆm d¡vidas diversas que nÆo ousam comentar com colegas. Percebem-se, aqui e ali, conversas telef“nicas constrangedoras, em que colegas envergonhados se explicam com credores. Os aposentados e pensionistas, entÆo, ainda terÆo que se ver, mais … frente, a bra‡os com a redu‡Æo de seus proventos, com a taxa‡Æo de inativos.



E a reversÆo, no caso, resolve o problema neste fevereiro de 2004. E no mˆs de mar‡o, que dinheiro vir ? Na contramÆo do que reza a administra‡Æo contemporƒnea de recursos humanos, o Banco ignora a amargura de seus servidores, impondo-lhes o pensamento permanentemente ligado a seus problemas dom‚sticos, e com isso prejudicando o rendimento de suas atribui‡äes, visto que päem o p‚ no Banco mas mantˆm a cabe‡a alhures.



NÆo h  dignidade, noite de sono e paz de esp¡rito que resistam … vergonha e … humilha‡Æo de dever, quando quem deve ‚ “ne¢fito” no assunto. NÆo h  “cara” para enfrentar a fam¡lia, a cada vez que se lhe estende mais um pouco o “arrocho”, com a imposi‡Æo de restri‡äes as mais comezinhas. E a falta de perspectiva de mudan‡a nesse quadro s¢ acirra as emo‡äes negativas no rumo de tristeza e apatia cr“nicas, qui‡  da depressÆo.



Urge que a Dire‡Æo, Presidente Meirelles … frente, cuide dos brasileiros dedicados, em fim-de-carreira, do Banco Central. A motiva‡Æo ‚ imprescind¡vel para o trabalho humano. Reformula‡Æo dos £ltimos n¡veis do PCS para permitir promo‡äes, reajuste de fun‡äes comissionadas compat¡vel com a responsabilidade exercida, aumento percentual nos proventos das £ltimas referˆncias, o Banco Central tem que pensar nas formas de estimular seus servidores, em especial os atualmente mais sacrificados.



Desmotivados, por conta dos 7 ou mais anos que ainda terÆo de trabalho pela frente, premiados pela segunda reforma da Previdˆncia que os apanha no contra-p‚; sem perspectivas de progredir na carreira por j  se encontrarem nas £ltimas referˆncias previstas no PCS; sem dinheiro, sentindo-se indignos e incapazes de continuar a tocar seus compromissos e projetos. Restar  a eles somente reconhecer, como Policarpo, que a sua vida ‚ “… um encadeamento de decep‡äes.”


*(Lima Barreto – 1880/1922, Triste fim de Policarpo) Quaresma)

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