VITRINE CULTURAL: PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO
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Precarização do trabalho
Você certamente já percebeu que o tráfego nas ruas e calçadas do Rio de Janeiro ficou completamente caótico nos últimos anos. Mas, além disso, o número de acidentes aumentou assustadoramente, principalmente devido a transgressões constantes das regras de trânsito. Em 2025, foram 47.070 atendimentos a vítimas de acidentes na rede municipal de saúde, de acordo com o Observatório Epidemiológico da cidade do Rio de Janeiro (EpiRio), o que representa uma alta de 45,7% em relação ao ano anterior. Do total de acidentes de trânsito, mais do que 68% são com motocicletas, e já ocorreram mais de 11,9 mil atendimentos desse tipo, somente nos quatro primeiros meses de 2026. Por outro lado, houve um aumento de 34% de atendimentos a ciclistas, de 2024 para 2025, quando 4761 foram registrados.
Não é coincidência o fato de que o número de trabalhadores por meio de plataformas digitais no Brasil tenha aumentado 25,4% entre 2022 e 2024, segundo pesquisa do IBGE, em parceria com a Unicamp e o Ministério Público do Trabalho. Se a praticidade de utilizar serviços de transporte a um custo mais acessível ou receber uma refeição em casa em menos de 15 minutos é uma realidade para grande parte da sociedade, do outro lado desses serviços há uma legião de trabalhadores precarizados. Foi o que quis verificar pessoalmente o sociólogo Douglas Alexandre Santos, mestrando da USP, que trabalhou durante seis meses como entregador ciclista para o iFood. Sua experiência etnográfica, relatada por Rute Pina em artigo para a BBC News Brasil, revelou que o sistema de trabalho imposto pelo algoritmo do aplicativo, com prazos curtíssimos, pune atrasos com rigor, praticamente forçando os entregadores a cometer infrações, já que a prudência pode resultar em perda da entrega ou suspensão temporária de 15 minutos. Segundo o pesquisador, “o tempo estipulado pela plataforma para as entregas simplesmente ignora engarrafamentos, semáforos fechados ou acidentes”, o que faz com que os entregadores arrisquem a própria vida para garantir uma entrega. Apesar disso, Douglas percebeu que, ao serem pressionados pelo aplicativo por velocidade, os rapazes jovens, movidos a adrenalina, abraçam o perigo como estilo de vida e prova de masculinidade.
Parece que voltamos muitas décadas atrás, pois, embora essa nova atividade econômica seja decorrente de uma revolução tecnológica e digital, as condições de trabalho são muito retrógradas, no que diz respeito a jornada de trabalho, segurança no trabalho e seguridade social. As empresas não fornecem equipamentos de proteção individual (EPI), local de descanso, nem água e, além disso, não contribuem para a previdência social. Ou seja, os donos das plataformas digitais ampliam seus lucros, transferindo integralmente os riscos de sua atividade para os trabalhadores, que trabalham em longas jornadas, sem a proteção de direitos trabalhistas e previdenciários.
Há filmes emblemáticos sobre o assunto, não mais disponíveis em streaming, tais como Você Não Estava Aqui (2019), do diretor Ken Loach e o mais recente A História de Souleymane (2024), de Boris Lojkine. Ambos mostram a rotina exaustiva desses trabalhadores e o preço alto que pagam pela liberdade ilusória de trabalhar por conta própria. Pessoas que empregam o pouco dinheiro que possuem para comprar ou financiar o instrumento de trabalho, seja carro, moto ou bicicleta. Impossível não lembrar do personagem Antonio, que penhora suas roupas de cama para comprar uma bicicleta, no clássico filme neorrealista italiano, Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica, que mostra a realidade de uma Itália assolada pela pobreza e o desemprego após sua derrota na Segunda Guerra Mundial.
A precarização contemporânea do trabalho está presente no filme Nomadland (2020), disponível na plataforma Disney Plus, que conquistou os prêmios de melhor filme, melhor diretor e melhor atriz no Oscar de 2021. O filme mostra o cotidiano de uma viúva, vivida pela atriz Frances McDormand, que perde a casa e passa a morar numa van, realidade enfrentada por muitos trabalhadores nos EUA. Com muita dificuldade para encontrar um emprego, ela recebe apoio solidário em uma comunidade de pessoas em situação semelhante, que vivem como nômades em seu país, em busca de trabalhos temporários.
Outro filme que merece ser visto é Sem Alternativa (2025), do cineasta sul-coreano Park Chan-wook, disponível no Mubi, Apple TV e Prime Video. Trata-se de uma refilmagem do filme O Corte (2005), de Costa-Gavras, ambos adaptados do romance The Ax, do escritor estadunidense Donald Westlake. É uma sátira com toques de humor ácido e suspense policial, em que o protagonista é um homem desesperado que, depois de perder seu emprego de décadas em uma fábrica de papel, resolve eliminar os concorrentes a um novo cargo que almeja conquistar. A história tem como pano de fundo a crescente automação de fábricas, acarretando a dispensa e o desamparo de um grande contingente de trabalhadores.
Com a expansão do uso da inteligência artificial (IA) generativa nos mais diversos setores da economia, essa tendência deve aumentar. Segundo estudo divulgado em maio de 2025 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), um em cada quatro empregos no mundo está potencialmente exposto à transformação pela IA, sendo que os empregos de escritório e administrativos devem ser os mais impactados. Além disso, profissões das áreas de mídia, tecnologia da informação e finanças também serão bastante afetadas, devido à capacidade da IA de assumir tarefas especializadas.
Resta saber como os governos enfrentarão os desafios impostos pelo aumento da longevidade associado ao crescimento da informalidade e da precarização no mundo do trabalho. Como preservar a seguridade social dos cidadãos nessa nova realidade?
| Simone é servidora aposentada do Banco Central do Brasil e Conselheira Regional do Sinal-RJ.
A coluna expressa opiniões da autora e não reflete necessariamente o posicionamento do Sinal-RJ. Envie críticas, comentários e sugestões para simone.daumas@gmail.com |
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