Edição 620 - 23.07.2026

A GRAMA É VERDE, AINDA QUE O BURRO INSISTA EM DIZER QUE É AZUL

 

O Apito Carioca dá sequência, nesta edição, à publicação de artigos do colega Ederson Macedo Campos, publicação essa que será realizada na forma de uma série.

Não deixe de acompanhar a série “Textos do Ederson”, de grande relevância, a nosso juízo!

1. PEC/65: Um trem carregado de direitos rumo ao abismo

2. A festa às portas do abismo: O alerta dos economistas sobre a PEC/65

 

TEXTOS DO EDERSON (3)

 

                                                                                Ederson Macedo Campos (*)

 

A GRAMA É VERDE, AINDA QUE O BURRO INSISTA EM DIZER QUE É AZUL

 

Conta uma conhecida fábula que um burro encontrou um tigre e começou a afirmar, com absoluta convicção, que a grama era azul. O tigre, confiando naquilo que seus próprios olhos constatavam, respondeu que a grama era verde. O burro, porém, não queria examinar os fatos nem admitir a realidade: desejava apenas impor sua versão, repetindo-a insistentemente, como se uma mentira pudesse transformar-se em verdade pela simples força da repetição.

 

A discussão acabou sendo levada ao leão. Depois de ouvir os dois, o rei da floresta puniu o tigre, não porque ele estivesse errado — todos sabiam que a grama era verde —, mas porque havia desperdiçado tempo e inteligência discutindo com alguém que não desejava compreender a verdade.

 

A lição é antiga. Tão antiga que até a Bíblia trata do assunto. Em Provérbios 23:9 encontramos a seguinte advertência:

 

 

No debate sobre a PEC 65, essa fábula parece ganhar uma versão adaptada à realidade do Banco Central. O papel do burro é desempenhado pela associação que procura apresentar-se como representante dos auditores da instituição, embora a representação sindical formal da categoria pertença ao SINAL, entidade que possui o documento legal que atesta essa autoridade.

 

A alta direção do Banco Central, ao ignorar frontalmente o nosso sindicato e, ao mesmo tempo, ouvir, prestigiar e incentivar as ações da associação, demonstra apenas que suas intenções não são suficientemente claras com respeito ao apoio a essa proposta de emenda constitucional. Afinal, quando a direção da instituição escolhe dialogar com uma entidade que não possui legitimidade sindical, enquanto despreza o representante legalmente constituído dos servidores, torna-se inevitável questionar quais interesses pretende realmente atender e por que evita um debate transparente com toda a categoria.

 

Não basta autoproclamar-se representante. Não basta falar mais alto, divulgar mensagens repetidamente ou tentar ocupar espaços institucionais e políticos. Representação legítima não nasce da insistência, da propaganda ou da conveniência momentânea. Ela decorre de respaldo jurídico, reconhecimento formal e compromisso efetivo com os interesses coletivos da categoria.

 

O SINAL, nessa metáfora, ocupa a posição do tigre. Possui a legitimidade documental para representar os servidores e, justamente por isso, deveria ser ouvido com a seriedade correspondente à sua responsabilidade institucional. O fato de uma associação repetir inúmeras vezes que fala em nome dos auditores não altera a realidade, assim como a insistência do burro jamais tornará azul a grama que continua sendo verde.

 

A mesma teimosia aparece na tentativa de convencer os servidores do Banco Central e a sociedade de que a PEC 65 abrirá as portas de um futuro maravilhoso para todos. Prometem-se modernidade, valorização, autonomia administrativa, melhores salários, segurança funcional e uma instituição supostamente mais eficiente. Entretanto, as promessas são apresentadas sem garantias suficientes e sem respostas claras para as consequências da profunda alteração pretendida na natureza e no funcionamento do Banco Central.

 

Repetir que a PEC 65 será benéfica não constitui prova de que ela realmente será. A propaganda não elimina os riscos, não preenche as lacunas do texto e não substitui o necessário debate técnico, jurídico, econômico e democrático. Quando faltam respostas objetivas, tenta-se compensar a fragilidade dos argumentos com entusiasmo, slogans e promessas de um futuro quase paradisíaco.

 

Tal comportamento lembra exatamente o burro da fábula: quanto mais a realidade contradiz sua afirmação, mais alto ele grita que a grama é azul.

 

O mais grave é que essa insistência não ocorre numa conversa inofensiva entre animais. Trata-se do futuro de uma instituição fundamental para o Estado brasileiro, de seus servidores e de políticas públicas que afetam toda a população. Uma decisão dessa dimensão não pode ser orientada por promessas vagas, interesses corporativos imediatos ou campanhas destinadas a transformar dúvidas legítimas em atos de deslealdade.

 

Talvez seja necessário, inclusive, refletir sobre a formação e os critérios de seleção adotados nos concursos mais recentes do Banco Central. Uma instituição pública não necessita apenas de pessoas capazes de responder corretamente às questões técnicas. Precisa de servidores que compreendam o papel do Estado, a natureza do serviço público, a responsabilidade institucional de suas funções e a diferença entre o interesse coletivo e as vantagens oferecidas a determinados grupos.

 

Conhecimento técnico sem consciência pública pode produzir profissionais altamente qualificados para executar tarefas, mas incapazes de perceber as consequências sociais, políticas e institucionais das decisões que defendem. Talvez os concursos precisem avaliar não somente a capacidade de memorizar normas, fórmulas e procedimentos, mas também a compreensão da missão pública do Banco Central e de sua responsabilidade perante a sociedade brasileira.

 

A grama continua verde. O SINAL continua sendo o representante sindical legítimo. E a PEC 65 continua exigindo um debate sério, responsável e transparente, por mais que alguns insistam em apresentar suas promessas como verdades incontestáveis.

 

A sabedoria talvez esteja em seguir a recomendação de Provérbios: não desperdiçar argumentos com quem despreza os fatos. Mas, quando o futuro do Banco Central está em jogo, o silêncio também pode ser perigoso. É necessário denunciar a falsa representação, desmontar as promessas sem garantias e repetir, quantas vezes for preciso, aquilo que a realidade demonstra:

 

A grama não é azul apenas porque o burro decidiu afirmá-lo.

 

 

(*) Ederson Macedo Campos é Servidor Aposentado RJU, lotado na Regional de Salvador, filiado ao Sinal desde 04.06.2024.

 

 

PEC-65: RUIM PARA O SERVIDOR DO BC,
PIOR PARA O BRASIL!

Diga pelo que você quer lutar!

LUTE JUNTO COM O SINAL!

 

O Sinal-RJ está mudando, para melhor!

 

Não deseja mais receber o Apito Carioca? Clique aqui

SINAL-RJ: End.: Av. Presidente Vargas, 962, salas 1105 a 1111 – Rio de Janeiro (RJ)
CEP: 20.071-002. Tel.: (21) 3184-3500. E-mail: sinalrj@sinal.org.br

Edições Anteriores
Matéria anteriorLuto!