Edição 638 - 28.08.2026
VITRINE CULTURAL: HOMENAGEM AOS PAIS
HOMENAGEM AOS PAIS
Neste mês de agosto, homenageamos os pais, aqueles que em nossa infância são tão importantes por representarem proteção, abrigo e apoio nas situações mais difíceis. A paternidade responsável pressupõe presença, escuta, orientação, compreensão e afeto. Se antigamente os pais inspiravam medo em seus filhos, porque muitas vezes chegavam a aplicar castigos físicos, hoje compreende-se que a autoridade deve ser exercida por meio do diálogo e da experiência, transmitindo confiança às crianças. É preciso guiar pelo exemplo e, sobretudo, amar os filhos como eles são, incentivando-os a buscar seu próprio caminho, em vez de tentar moldá-los às suas expectativas. Nem todos conseguem respeitar a individualidade de seus filhos, o que gera muitos conflitos familiares que poderiam ser evitados. Talvez seja esse um dos maiores desafios para os pais: criar seus filhos amorosamente, abandonando preconceitos e padrões machistas ultrapassados, e preparando-os para uma vida adulta independente e com plena liberdade.
Não faltam filmes interessantes sobre a relação entre pais e filhos. No filme Capitão Fantástico (2016), Viggo Mortensen interpreta um pai que decide viver com sua mulher e seis filhos isolados numa floresta, em harmonia com a natureza e completamente afastados da civilização. Apesar disso, as crianças cumprem uma rotina de estudos bem abrangentes, como matemática, artes e literatura, exercícios físicos e técnicas de sobrevivência. Repudiando o consumismo da ideologia capitalista, a família substitui a comemoração natalina pela celebração do aniversário do linguista Noam Chomsky, intelectual crítico do neoliberalismo. A aparente harmonia é quebrada quando uma fatalidade leva a família a retornar ao ambiente urbano e reencontrar com parentes, reabrindo velhos conflitos. A difícil adaptação das crianças à nova realidade coloca em xeque o tipo de educação que seus pais lhes deram. O filme encontra-se disponível para aluguel no Google Play, Apple TV e Prime Video.
No filme Paternidade (2021), no catálogo da Netflix, um pai viúvo e enlutado tenta conciliar a criação da filha recém-nascida com seu trabalho em uma carreira bem-sucedida. Apesar dos desafios e da desconfiança dos avós da criança, Matt revela-se um pai sensível, carinhoso e dedicado. O interessante é notar como familiares, colegas de trabalho e amigos duvidam da capacidade dele de criar sua filha sozinho, o que só demonstra a resistência da ideologia do patriarcado em pleno século XXI. Não estou minimizando as dificuldades, que são muitas e reais, mas tão somente dizendo que elas são praticamente as mesmas que são enfrentadas por tantas mães solo diariamente. Mulheres não nascem prontas para cuidar de seus filhos recém-nascidos, também enfrentam insegurança, estresse e cansaço extremo, em maior ou menor grau, a depender de sua situação econômica. A necessidade de cuidar de uma criatura indefesa é que gera o rápido aprendizado, como mostra o protagonista do filme. Já mencionei em artigo anterior que o Censo do IBGE de 2022 registrou cerca de 7,8 milhões de mães solo, e que, para cada pai solo, havia seis mães solteiras no Brasil. A conclusão óbvia é que muitos homens não assumem o exercício da paternidade, deixando mulheres e seus filhos em dificuldades ou em situação de vulnerabilidade econômica.
Para refletir sobre a solidão em metrópoles como Tóquio, recomendo assistir ao genial Família de Aluguel (2025), disponível na Disney+. Nesse filme, Brendan Fraser, premiado com o Oscar de Melhor Ator em 2023 por sua atuação em A Baleia, interpreta um ator americano que vive em Tóquio sozinho. Na falta de melhores oportunidades na indústria cinematográfica, ele aceita o emprego em uma agência japonesa que oferece o serviço de “aluguel de família”, que se caracteriza pela atuação sob encomenda na vida de estranhos, assumindo papéis de pai, namorado, amigo etc. O problema é que ele não consegue manter um distanciamento profissional e acaba se envolvendo emocionalmente com os clientes. Isso acontece principalmente com uma menina, cuja mãe o contrata para assumir temporariamente o papel de um pai ausente. Aos poucos, eles desenvolvem uma relação de afeto verdadeiro.
Para além da relação entre pais e filhos na infância ou adolescência, é preciso lembrar que o tempo passa e o envelhecimento acontece, de tal forma que, de repente, nos damos conta de que nosso pai, que antes representava força e segurança, agora tornou-se frágil e carente de nossos cuidados. Então, é hora de retribuir todo o carinho que recebemos ao longo de nossa vida para essa pessoa que antes foi nosso alicerce. O belo filme Meu Pai (2020) aborda essa fase delicada da vida, que exige dedicação dos filhos. Nesse filme, disponível na Globoplay, AppleTV e Prime Video, o excelente ator Anthony Hopkins vive um pai idoso que já sofre de demência, mas que se recusa a aceitar a ajuda de uma cuidadora. Portanto, sua filha Anne, interpretada pela premiada atriz Olivia Colman, enfrenta um duro conflito, pois precisa se mudar para Paris e não poderá mais visitá-lo todos os dias. O filme retrata muito bem a gradual confusão mental do pai e as dificuldades da filha em lidar com o adoecimento dele.
Para finalizar, em homenagem aos pais idosos, reproduzo aqui um lindo poema de Mario Quintana:
As mãos de meu pai *
As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
— como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram
ou fremiram da nobre cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah! Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida
… e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.
*Mario Quintana, no livro Esconderijos do Tempo, Editora Alfaguara, 2013.
Simone Daumas é servidora aposentada do Banco Central do Brasil e Conselheira Regional do Sinal-RJ.
A coluna expressa opiniões da autora e não reflete necessariamente o posicionamento do Sinal-RJ.
Envie críticas, comentários e sugestões para simone.daumas@gmail.com
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