Edição 642 - 08.09.2026

VITRINE CULTURAL: PATERNIDADE CONTEMPORÂNEA

Pesquisando sobre o tema da paternidade, li recentemente três artigos muito bons que gostaria de comentar. Todos eles nos conduzem à defesa de uma paternidade mais ativa, de presença e cuidado, e mais libertadora, de escuta, diálogo e aceitação. Eles nos confrontam com a necessidade de rompermos com o padrão antigo de masculinidade, para que nossos filhos e netos sejam pessoas melhores em sociedade e mais felizes em suas vidas.
O primeiro é o artigo da escritora Giovana Madalosso, chamado Pais que rompem com o velho contrato, publicado na Folha de S.P. Basicamente, ela conta como seu marido não entrou em choque nem em conflito quando o filho adolescente apareceu em casa de saia e unhas pintadas. Fala também de seu próprio pai que acabou aceitando sua decisão de largar a faculdade que ele queria que ela cursasse. E, por último, conta que viu recentemente um pai jovem dizer para uma criança que estava furiosa porque seu time havia perdido uma partida de futebol: “chora, filho”! Parece simples, não é? Mas os três, pais de diferentes gerações, rasgaram um contrato de paternidade patriarcal “em que os pais ocupam posições de poder sobre seus filhos e esposas, com visões rígidas de gênero, pouco diálogo e sempre a última palavra, que costuma ser proferida de forma autoritária — e sem demonstrar emotividade, já que tal traço é relacionado à fraqueza”.
Sobre essa visão ultrapassada da masculinidade, vale assistir na Netflix ao ótimo filme Homem com H, estrelado pelo ator Jesuíta Barbosa, que fez um trabalho incrível incorporando Ney Matogrosso. O filme conta a história de vida do cantor, desde sua infância, marcada por uma relação muito conflituosa com o pai, um militar conservador, até a carreira de sucesso, construída muito cedo, à distância da família.

O segundo artigo é da jornalista Rosana Hermann, intitulado “Juliano Cazarré, Júnior Lima, Jesus e a ideia de masculinidade, também publicado na Folha. Ela critica uma espécie de “curso de masculinidade para homens enfraquecidos”, promovido pelo ator Juliano Cazarré, que se declara conservador. Eu me recuso a chamar homens machistas de conservadores, pois eles são reacionários, ou seja, querem retornar à situação de quase um século atrás, eliminando direitos duramente conquistados pelas mulheres, como o simples  direito ao voto. O que ela argumenta, que é muito importante, é que “a ideia de masculinidade tradicional está no cerne da epidemia de feminicídios que estamos vivendo”, já que casos de agressões a mulheres por parceiros opressores, machistas e misóginos não param de crescer. Ressalta também que esses agressores “demonstram um total descontrole emocional e incapacidade de elaborar emoções como raiva, ira, ciúme, embasados em conceitos absurdos como a ideia de que são donos da vida de suas parceiras”. Acrescento que muitos homens emocionalmente fracos e incapazes de lidar com a rejeição e de procurar ajuda, extravasam seus sentimentos com agressividade, enquanto as mulheres, na mesma situação, não evitam o choro e o desabafo, buscando o apoio e a escuta de suas mães, de suas amigas ou, se necessário, de psicoterapeutas.
Por último, o artigo de Diego Arguedas Ortiz, publicado na BBC News com o título Como a paternidade muda o cérebro masculino”, é o mais interessante. O autor cita pesquisas científicas recentes que têm demonstrado que a paternidade ativa altera os níveis hormonais dos homens. Por exemplo, a diminuição da testosterona e o aumento da oxitocina foram observados, além de mudanças nas atividades cerebrais, após o envolvimento dos pais nas tarefas de cuidado de seus bebês. O artigo é longo e cita o resultado de várias pesquisas científicas com resultados semelhantes. Ao contrário do senso comum, o colunista conclui que as mudanças nos sistemas endócrino e neural “mostram que o pai cuidador não é uma aberração moderna, mas uma característica biológica profundamente enraizada”, o que reforça o argumento da antropóloga estadunidense Sarah Blaffer Hrdy de que os homens “possuem toda a estrutura biológica necessária para serem tão protetores e cuidadosos quanto a mãe mais dedicada”.
Finalmente, recomendo àqueles que gostam de cinema, especialmente de prestigiar a produção nacional, ora em franca ascensão, que aproveitem a reabertura do Espaço Cultural BNDES, onde há uma programação semanal de cinema, música e artes visuais, gratuita e aberta ao público.

Para os amantes da música instrumental brasileira, vale assistir ao próximo concerto Camerata de Violões 30 anos, que acontecerá no dia 11/9 (sexta-feira), às 19h. Os ingressos devem ser reservados com antecedência, a partir das 12h do dia 08 de setembro (terça-feira). Para mais informações, consulte aqui.
Simone Daumas é servidora aposentada do Banco Central do Brasil e Conselheira Regional do Sinal-RJ.
A coluna expressa opiniões da autora e não reflete necessariamente o posicionamento do Sinal-RJ.
Envie críticas, comentários e sugestões para simone.daumas@gmail.com

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