Edição 648 - 29.09.202
VITRINE CULTURAL: MULTILATERALISMO EM RISCO
Estamos a poucos dias de uma eleição importantíssima para o Brasil, para a América Latina e, me arrisco a dizer, para o mundo. Nesta eleição, estarão em disputa não só dois projetos de Brasil absolutamente antagônicos, mas também duas visões de mundo radicalmente diferentes. Escrevo isso, com mais convicção e muita indignação, depois de ouvir na íntegra os discursos do presidente Lula e de Donald Trump na abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York.
O presidente brasileiro abriu seu discurso com uma crítica impecável à própria ONU, mais precisamente, à estrutura do seu Conselho de Segurança, que, graças ao poder de veto de cinco países membros, tem sido incapaz de mediar conflitos e impedir guerras, destacando que o ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Segundo Lula, a guerra “é a falência total da política”. Ressaltou, ainda, que “trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista” e que “liderar é conciliar os interesses da pátria com os da humanidade”. Sua fala se inscreve na tradição da diplomacia brasileira, reconhecida pela valorização do multilateralismo, pelo respeito à soberania das nações, e pela defesa das liberdades fundamentais e da solução pacífica de conflitos. Em clara referência aos EUA, criticou “a divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos”, arrematando com a seguinte frase: “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Em contrapartida, o discurso do presidente Donald Trump não poderia ser mais ameaçador para o mundo, ressaltando o poder bélico de seu país e a disposição de usá-lo para defender os interesses estadunidenses, mesmo que violando a soberania dos demais países e as regras internacionais estabelecidas. Defendeu a invasão da Venezuela, que garantiu aos EUA, segundo suas estimativas, em conjunto com as reservas venezuelanas, mais de 60% do petróleo existente no mundo. E acrescentou: “se for necessário, vamos usar o nosso poderio militar para garantir a segurança dos Estados Unidos”. Trump também criticou o Tribunal Penal Internacional (TPI), responsável por julgar indivíduos por: genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade e crimes de agressão, ou seja, o uso da força armada por um Estado contra a soberania, a integridade ou a independência de outro Estado. Não à toa, Trump classificou o TPI de maligno, afirmou que o órgão não tem poder sobre os militares americanos e pediu a renúncia de todos os seus membros.
Lula criticou o negacionismo da ciência, lembrando que ele custou milhões de vidas durante a pandemia da Covid-19 e que campanhas antivacina estão trazendo de volta doenças anteriormente erradicadas. Alertou ainda para o enfraquecimento da Organização Mundial de Saúde (OMS), que deixa o mundo todo mais vulnerável. Chamou a atenção também para a crise climática, que desapareceu da agenda internacional e precisa ressurgir. Disse que “a natureza nos recorda a cada dia que o planeta é um só”. Mencionou o derretimento das geleiras do Himalaia e os possíveis efeitos do super El Niño, que “pode provocar chuvas torrenciais, secas e incêndios florestais em diferentes partes do globo”. Em contrapartida, Trump apenas se vangloriou por deter agora uma quantidade gigantesca de petróleo, sem mencionar nada sobre transição energética ou redução de emissões de carbono.
Por fim, o presidente Lula ressaltou a segurança da urna eletrônica e rechaçou interferências externas no processo eleitoral. Fez menção indireta aos ataques de oito de janeiro de 2023 ao declarar: “não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”. É preciso lembrar que aqueles que tramaram o golpe durante todo o ano de 2022, inclusive militares de alta patente, foram julgados e condenados. Se valorizamos a democracia, devemos rejeitar qualquer espécie de indulto para golpistas que atentaram gravemente contra ela. Lamentavelmente, a Lei da Anistia, sancionada em 1979, que permitiu a soltura de presos políticos e o retorno de exilados, também beneficiou militares e policiais acusados de tortura e assassinato, deixando-os impunes.
Ao contrário do Brasil, a Argentina decidiu julgar em um tribunal civil os nove líderes das três primeiras juntas militares que governaram o país, a partir do golpe de Estado de 1976, por crimes de homicídio e tortura. Logo após o fim do regime militar, em 1985, o promotor Julio César Strassera liderou a acusação contra os comandantes, incluindo o ditador Jorge Rafael Videla. Em seu discurso final, Strassera proclamou a emblemática frase: nunca mais!

Para conhecer melhor esse julgamento histórico, recomendo demais o excelente filme Argentina, 1985 (2022), disponível no Prime Video. Dirigido por Santiago Mitre e estrelado por Ricardo Darín no papel do promotor, o filme foi vencedor do Globo de Ouro de 2023, na categoria de melhor filme em língua estrangeira.
Outro filme interessante que vale a pena assistir, sobre a ditadura brasileira, é O Pastor e o Guerrilheiro (2023), disponível na Globoplay e AppleTV. Trata-se do encontro de Zaqueu, um pastor evangélico, com o guerrilheiro Miguel numa cela, na década de 1970, durante a ditadura militar. A história se passa também no ano de 1999, quando uma estudante universitária encontra o livro escrito por Miguel, que conta toda a sua trajetória. Embora seja uma obra de ficção, o filme foi inspirado na história real relatada no livro Araguaia: Relatos de um Guerrilheiro, de Glênio Sá.
Simone Daumas é servidora aposentada do Banco Central do Brasil e Conselheira Regional do Sinal-RJ.
A coluna expressa opiniões da autora e não reflete necessariamente o posicionamento do Sinal-RJ.
Envie críticas, comentários e sugestões para simone.daumas@gmail.com
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