Edição 665 - Tarde de 04.11.2026
VITRINE CULTURAL: VITÓRIA DA DEMOCRACIA
VITÓRIA DA DEMOCRACIA
Nas três semanas de campanha entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial deste ano, surgiu uma força inesperada de reação que garantiu a vitória de Lula, por uma vantagem folgada de 4,4 milhões de votos, depois de ter ficado atrás de seu adversário no primeiro turno por uma diferença de 2,2 milhões de votos. O feito é inédito na história política brasileira e deve-se principalmente à grande redução da abstenção. No segundo turno, compareceram às urnas quase 3 milhões de eleitores a mais do que no primeiro turno, representando uma diminuição da taxa de abstenção de 21,08% para 19,22%, o menor percentual em eleições presidenciais desde 2006, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.
Como Lula conseguiu essa virada histórica? Não há dúvida de que foi com uma mobilização intensa, nas ruas e nas redes sociais, que surgiu logo após sua derrota no primeiro turno. Inconformados com o resultado que mostrou Flávio Bolsonaro na dianteira da corrida presidencial, e diante da possível ameaça de cortes drásticos no orçamento das universidades públicas como aqueles promovidos pelo governo de Jair Bolsonaro, estudantes de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF) começaram a organizar uma manifestação, que aconteceu em Niterói logo na noite do dia seguinte. Na quarta-feira (7/10) foi a vez dos estudantes secundaristas e universitários do Rio de Janeiro fazerem um ato no centro da cidade em prol da campanha de Lula. A partir de então, outras manifestações de estudantes e trabalhadores, ao lado de políticos do campo da esquerda, ocorreram em diversas cidades do país.
Ao mesmo tempo, em 6/10, o deputado federal André Janones, reeleito pelo partido Rede-MG, convidou seus seguidores das redes sociais a entrar num novo canal do Whatsapp, chamado “Exército do Lula”. Em sua convocação, ele dizia que a esquerda precisava batalhar pelo domínio das redes sociais, tradicionalmente instrumentalizadas pela extrema-direita com bastante eficácia. Assim, ele prometia fazer do canal um instrumento de disseminação de fatos e notícias favoráveis ao candidato Lula, que deveriam ser divulgados nas redes pelos participantes. Em um dia, o canal atingiu mais de um milhão de seguidores ansiosos para colaborar e esperançosos de que a virada seria possível. Foi assim que esse exército digital conseguiu driblar a Meta, dona das redes WhatsApp, Facebook, Instagram e Threads, que parecia estar deliberadamente privilegiando a distribuição de conteúdo favorável à campanha de Flávio Bolsonaro. O grupo se expandiu ao longo das três semanas até superar 10 milhões dois dias antes da eleição. A ideia era convencer indecisos a aderir à candidatura do PT, mostrando também os supostos riscos que o candidato do PL oferecia para a democracia e para os direitos assegurados na Constituição Federal, uma vez que, logo após a vitória no primeiro turno, Flávio declarou que pretendia estender seu mandato e fazer outras mudanças constitucionais.
A campanha do PT ganhou o reforço de muitos artistas, músicos, professores, cientistas, médicos, advogados, economistas, filósofos, ambientalistas, delegados, jornalistas e outras celebridades que, por diversas razões, declararam seu voto em Lula. Na reta final, a convocação foi para que todos se esforçassem para aumentar o comparecimento nas urnas, principalmente da população idosa, acima de 70 anos, que teria faltado no primeiro turno.
Quem escolheu Lula no segundo turno, votou pela democracia e pela paz, honrando o artigo 5o da Constituição Federal, que garante os nossos direitos fundamentais. Sobretudo, votou pela vida dos povos indígenas que guardam nossas florestas e rios, pela vida e dignidade das mulheres, da população negra, do povo LGBTQIA+, dos quilombolas, dos trabalhadores nordestinos, enfim, pela vida de todos os brasileiros. Votou também a favor da manutenção das políticas públicas que reduziram a desigualdade e promoveram a mobilidade social nas últimas décadas.
As últimas pesquisas eleitorais não captaram bem a virada que já estava em curso e o efeito da gigantesca mobilização nas ruas e nas redes. O fato mais impressionante é que Lula ganhou 10 milhões dos 14 milhões dos novos votos válidos que surgiram no segundo turno, ou seja, 71% das pessoas que optaram por escolher um dos dois candidatos no segundo turno, votaram no candidato do PT. De onde esses novos votos surgiram? Além dos votos de indecisos e daqueles que optaram por não anular seu voto no segundo turno, foi crucial a participação dos idosos, que compareceram em massa para votar em Lula no segundo turno. Não faltam vídeos emocionantes desses bravos brasileiros que, tendo vivido durante a ditadura militar, buscaram evitar que a nossa democracia ruísse gradativamente após a eleição, como aconteceu na Hungria com Orbán e na Turquia com Erdogan. A percepção de tudo que estava em risco, possivelmente até a soberania do nosso país, deu-lhes o ânimo para sair de casa e depositar seu voto nas urnas. Assim, esses idosos valorosos uniram-se à juventude que os convocou, numa aliança intergeracional importantíssima para o triunfo de Lula.
Em seu primeiro discurso na Avenida Paulista, logo após o resultado, Lula agradeceu emocionado aos idosos que, com muito esforço e dificuldades de locomoção, compareceram às urnas.

Dessa vez, vou repetir uma dica que dei no meu primeiro artigo da Vitrine Cultural. Trata-se da excelente minissérie M: O Filho do Século (2024), disponível na plataforma MUBI. Bastante fiel aos fatos históricos, a série mostra a impressionante ascensão de Mussolini ao poder, inaugurando o fascismo.
Recomendo também a leitura do livro O Animal Social, de Elliot Aronson, psicólogo social estadunidense, que apresenta a reedição de 2017 de seu livro dizendo que ele ajuda a explicar “como a ascensão de bolhas de informação e fontes de mídia autoconfirmadas modelam as crenças e o comportamento polarizado de nossa nação”. Embora ele tenha se referido aos EUA após a primeira eleição de Trump, o mesmo fenômeno ocorre no Brasil polarizado que emergiu após a eleição de Bolsonaro em 2018. Devo ressaltar que, apesar de ser um livro científico, sua leitura é bem prazerosa, uma vez que menciona experimentos muito interessantes que corroboram as teorias apresentadas.
Para compreender como as redes sociais conseguiram dominar a internet e transformar o comportamento humano, por meio de algoritmos que induzem ao vício, privilegiando conteúdos alarmistas e disseminando fake news, vale a pena assistir ao documentário O Dilema das Redes (2020), disponível na Netflix. Repleto de depoimentos de profissionais que trabalharam nas grandes empresas de tecnologia, o filme é revelador, pois mostra como os algoritmos avançaram para capturar cada vez mais nossa atenção, gerando ansiedade e promovendo a criação de bolhas informacionais, que amplificam a polarização política das sociedades, enquanto aumentam os lucros das próprias big techs.
Portanto, combater a desinformação e a disseminação de discursos de ódio nas redes sociais e impedir a interferência direta das empresas proprietárias em eleições presidenciais constituem um enorme desafio para os governos de muitos países. Por esses e outros motivos, a regulação das redes voltou ao debate público em nossa sociedade e no Congresso Nacional.
Simone Daumas é servidora aposentada do Banco Central do Brasil e Conselheira Regional do Sinal-RJ.
A coluna expressa opiniões da autora e não reflete necessariamente o posicionamento do Sinal-RJ.
Envie críticas, comentários e sugestões para simone.daumas@gmail.com
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